Você tem muita calça jeans?

A pergunta do título serve também pra mim: eu tenho muita calça jeans. Muita pra quem mora numa cidade quente, para quem não sai mais para trabalhar todo dia – quando saio, quero usar outras calças mais interessantes que jeans. Eu amava jeans, achava a peça mais curinga e prática do universo, me sentia super confortável nelas. Queria modelos diferentes para poder variar, fora o vício que adquiri com o modelo flare, aquele estilo boca de sino, antes tive um apego com as skinnys, que são mais justinhas. Ganhei algumas delas, outras comprei porque achava que precisava, acreditava que usaria muito, principalmente as de fast fashion.

Depois veio a vontade de ter jaqueta jeans, e, na busca, trouxe três pra casa. Todas foram de segunda mão, uma custou 20 reais, mas mesmo assim, são muitas.

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Hoje em dia não uso nem 1/5 dessas calças

Usei bem muitas delas, mas repara só como jeans é uma peça muito difícil de se acabar. Você usa, usa, usa, e, no máximo, ficam mais surradinhas, ou então aqueles rasgos propositais aumentam e ficam esquisitos, mas, no geral, não é um item que vai encher de bolinha, dá pra mandar tingir e repor a cor, dá para cortar e transformar em short, cortar as mangas da jaqueta e fazer colete. Jeans é versátil até nisso, mas a questão, é: enjoei, não quero mais, mas a calça ainda está boa para o uso. E aí, o que fazer com elas?

A lenda dos básicos necessários

Foi divulgado à exaustão, tanto em revistas, quanto em livros de consultoras de moda, que TODO MUNDO tem que ter itens básicos no armário e o jeans estava lá. Nessa crença de que todo mundo precisa de uma peça jeans, achamos também que, mudando a variação delas, em lavagens e modelagens, teremos um guarda roupa mega versátil e prático. Aí dá-lhe ter mais de 30 calças, mas acreditando nessa super variação só porque tem todas as escalas de tons, do claro ao escuro; dos modelos super skinny até as boyfriend, destroyed, flare, pantacourt. Uma infinidade. Muito mais calça do que você pode dar conta nos seus dias.

Daí também entender que é uma peça que coordena com tudo e que resolve rapidamente suas questões no vestir, é um pulo. Tá na dúvida da camisa estampada, com o que usar? Não precisa quebrar a cabeça pensando qual saia combina mais, se fica melhor com um short ou calça alfaiataria: pega a calça jeans e tá tudo certo! Camisa estampada? Com jeans. Jaqueta colorida? Com jeans. Blusa naquela cor berrante? Idem.

A falta de prática em tentar novas ideias de coordenação, a correria do dia a dia, a falta de tempo e até a preguiça de pensar muito contribuem para o vício em usar o jeans para resolver todas as suas questões de estilo. Não, você não precisa ter uma calça jeans se você não curte tanto a peça. Sim, você monta looks incríveis com uma ou duas calças desse material em seu armário.

Outro porém é a transição da vida universitária para o mercado de trabalho. O jeans sempre funcionou na faculdade e colégio, de repente nos sentimos na obrigação de investir em alfaiarias, peças estruturadas em melhores tecidos. O despojamento da peça muitas vezes não cabe na adequação do código de vestir empresarial e é substituído, assim, pelas calças pretas. Seis por meia dúzia, sem dúvida.

Claro que temos as pessoas mais básicas, que aderem mesmo ao visual sem melindres, mas o que trago aqui como pensamento é que não precisamos ter tanto jeans no armário. A confecção de uma única calça jeans consome 11 mil litros de água, fora a química usada no tingimento, além do gasto em água na fibra do algodão. É muito desperdício de recursos hídricos dentro dos nossos armários.

Marcas que reaproveitam jeans

Uma alternativa para não gerar demanda da indústria e aproveitar os jeans que já existem é a sua transformação em peças novas. Listei algumas marcas que cumprem com maestria esse papel, trazendo alternativa possível para que tantas peças não se acumulem no mundo, a partir de sobras têxteis, peças doadas e compradas em bazares de igreja e brechós.

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Oficinas da Think Blue
Think Blue Upcycling

A marca carioca de reuso da designer Mirella Rodrigues garimpa peças jeans em bazares de igreja para transformá-las, em um processo de criação e modelagem que resulta em roupas criativas e fashionistas. Recentemente fizeram um desfile-protesto no Brasil Eco Fashion Week, em São Paulo, reforçando que não tem como falar de sustentabilidade sem ativismo.

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Pelo site é possível ver os itens disponíveis, além de atenderem pedidos para calças, jaquetas, shorts e blusas. Como a produção é reduzida e as peças são garimpadas, existe uma quantidade limitada e variação do material empregado.

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A marca abriu os custos de produção, bem como o tempo investido em cada parte da confecção de uma peça. Achei incrível para dar a noção do trabalho que é criar, costurar e viabilizar uma roupa, além de mostrar que criar uma roupa é um processo que toma tempo, principalmente se for numa produção menor, que valorize a mão de obra.

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MIG jeans

A marca das amigas cariocas começou com um projeto de um curso de moda, com a criação e customização a baixos custos a partir de peças jeans no fim da sua vida útil doadas, de resíduos têxteis e garimpadas em brechós e bazares, e hoje elas facilitam oficinas para marcas como Levi’s e AHLMA. A marca aceita doação de peças jeans e oferece de contrapartida desconto na compra das suas roupas. As etiquetas das roupas da marca são confeccionadas a partir de retalhos, e botões reciclados e em desuso são escolhidos para a produção.

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COMAS

Augustina Comas era modelista de marcas como Daslu e do estilista Jum Nakao, e, já nessa época, observou como roupas e camisas eram descartadas por pequenos defeitos, que não comprometiam o resultado final. A sua marca, baseada em São Paulo, se propõe a reutilizar as camisas masculinas descartadas pela indústria e, num processo de modelagem extremamente criativo e brilhante, criar peças femininas, como blusas, vestidos, saias, reaproveitando e inserindo nas suas peças até as sobras dos cortes do tecido. A Comas também facilita oficinas e workshops de upcycling.

Em entrevista ao site Lilian Pacce, Augustina contou mais do seu novo empreendimento, com upcycling em peças de jeans, em parceria com a empresa Souza e Cambos: “Eles fazem tratamento de água, gestão de resíduos sólidos, fiz questão de ver de perto e é uma empresa muito bacana. Estamos usando o jeans reciclado deles, que é desfibrado de sobra e misturado só com algodão. Não aceitaria se fosse com pet, poliéster nem a pau, porque o que pouca gente sabe é que quando você lava em casa micropartículas de plástico se desprendem e vão pro oceano do mesmo jeito”.

Os jeans da marca seguem o conceito do patchwork, que, ainda de acordo com a matéria, usa tanto o avesso quanto o lado certo do tecido e tem o mínimo de sobra de corte possível.  Também reaproveita as ourelas, que são as sobras da barra do tecido que geralmente são descartadas e de pedaço que também sobra do corte para incorporarem em detalhes.

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Não precisamos de tanto jeans no armário. Ninguém, repito, ninguém consegue usar todas de uma maneira que faça valer mesmo o custo x benefício e, sinceramente, jeans usado de maneira básica não promove a versatilidade do guarda roupa, nos limita nas ideias e, mesmo que tenham variação, é usar mais do mesmo.

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Comentários pelo blog

28 comentários

  1. Caroline comentou:

    Olá!
    Adorei a postagem! Também já fui fã de calça jeans, mas hoje não me identifico tanto. Entrei em contato com uma das marcas que você mencionou, meu marido tem várias calças que se desgastam entre as pernas, mas que no restante da peça estão conservadas. Obrigada pelo post!

  2. comentou:

    Ana, desse mal não padeço. Tenho duas calças jeans apenas, uma moderinha com rasgos para passear e uma jeans escura que uso mais na casual friday aqui do escritório. Calça jeans é algo que nunca encheu meus olhos.

  3. Nyara comentou:

    Vivendo e aprendendo. Infelizmente eu sou dessas que tem varias calças jeans no armário. Parabéns Ana pelo Blog e eu sempre estou vendo seus stories e vou tentar seguir suas dicas. Algumas coisas eu já estou mudando mais ainda falta muito mais um dia chego lá. Um abraço

  4. Monica comentou:

    Ana seu artigo foi esclarecedor e impactante. Lembrarei dele toda vez que pensar em comprar mais um jeans.
    Muito obrigada pela matéria.
    Mônica

  5. Anne comentou:

    Eu já tive mais calças jeans no armário do que tenho hoje. E mesmo assim, ainda acho que tenho muitas. Sou fã de calça jeans, as que tenho são diferentes entre si, mas sinto a mesma coisa, mesmo elas sendo diferentes, acabam dando um efeito parecido no final, e tô pra dizer que apesar de achar super versáteis e práticas, às vezes as calças skinnys, mais justinhas, não são muito confortáveis. E nossa, no verão é complicado mesmo, elas esquentam demais, eu mesma que adoro, acabo não curtindo muito e deixando de lado. Estou tentando mudar um pouco, e sair da zona de conforto que o jeans me trouxe por muitos anos. Mas tô contigo: ninguém precisa de calça jeans se não gostar de usar, ninguém precisa de uma camisa branca, de um scarpin preto… enfim, ninguém tem que ter nada só porque alguma lista em algum lugar disse que tem!

    1. Ana Carolina respondeu Anne

      ótima análise, Anne! Fico feliz que vocês tenham gostado 🙂

  6. Marina comentou:

    Ana, vou ter que discordar de você um pouco aqui. Fiquei horrorizada com a quantidade de água gasta na produção de 1 peça e acho sim que não precisamos de tantas calças.

    No entanto, eu sou apaixonada por jeans. Calça, short, vestido, blusa, camisa, jaqueta (que acho lindas, embora para mim sejam muito desconfortáveis)…Gosto muito de tudo e raramente não uso uma peça jeans.

    Acho que sempre é possível variar, seja na modelagem, seja no tipo de jeans, na cor, e confesso que foi-se o tempo em que eu me cobrava por usar pouco outras peças, sobretudo nas peças de baixo. Eu pensava extamente como você afirma no último parágrafo : “(…)jeans usado de maneira básica não promove a versatilidade do guarda roupa, nos limita nas ideias e, mesmo que tenham variação, é usar mais do mesmo” e realmente me sentia mal e preguiçosa em termos de estilo com isso. Resultado: comprei muita calça de tecido plano (todas paradas no armário ) e saias diversas de outros tecidos (que ok, até uso de vez em quando no verão).

    A questão é que eu caí na real de estilo basicamente implica em a gente se vestir de acordo com o que a gente é, e que não dá pra se cobrar de ter que se vestir de acordo com os parâmetros de “interessância” dos outros. De que adianta ter comprado, sei lá, uma pantacourt de tecido fresquinho se eu usava sem me sentir à vontade 1 minuto sequer, achando que o tecido estava marcando minha calcinha, minhas celulites, minha barriga e tudo o mais. Não falo nem da questão do corpo, que todo mundo tem suas imperfeições e dane-se. A questão é que eu não me sentia à vontade e nem me sentia eu.

    Com jeans (sempre com 2% de elastano, pra mim é o ideal) eu vario na cor, na modelagem, lavagem, combino com meus cintos de couro, minhas blusas, meus acessórios (um vício) e me sinto bem, confortável, firme etc etc etc, enfim, eu mesma. E não me acho menos interessante ou venos bem vestida por isso, até pq o jeans é pra ser escolhido com carinho e não dá pra banalizar “só pq é jeans e é tudo igual”. Não é.

    E isso sem contar que uma das minhas musas de estilo é a Emanuelle Alt. Qualquer influencer da vida se veste com roupas mais variadas e teoricamente mais interessantes, mas o conjunto da obra e quem tá ali debaixo das roupas é que devia ser o mais interssante, não?

    1. Ana Carolina respondeu Marina

      Então, esse post eh pra quem quer variar o jeans e não pra quem não quer. 😉

    2. Ana Carolina respondeu Marina

      E concordo demais que jeans precisa ser bem escolhido! O que vc comentou da variação tem a ver com tentativas de estilo. E tudo bem ver que não se aplica a você! Nesse caso do post eu refiro a quem compra jeans demais e não pensa sobre outras possíveis variações.

  7. fernanda comentou:

    Acho que cada uma tem o armário que quer e compra o que quer ou o que precisa. Só nós podemos dizer quantas peças de roupa devemos ter e o que é interessante ou não. Variações ? Isso vai de pessoa para pessoa. Eu por exemplo, jamis teria um armário cápsula e estou muito feliz assim. Gosto do meu armário cheio e uso as roupas da forma que quiser
    Além da listas “tem que ter” teremos também as listas ” quanto ter” e “o que não ter” ?
    Pque o policiamento ? Viva a liberdade de escolha.

    1. Marina respondeu fernanda

      Nossa, falou tudo.

      1. Uiara respondeu Marina

        Exatamente! E se a gente quiser vestir mais do mesmo, qual o problema?

        1. Ana Carolina respondeu Uiara

          Nenhum. Mas tem quem vista mais do mesmo e se incomode com isso. É esse post é pra quem quer se libertar e ver mais escolhas e não pra quem não vê problema algum 😉 Simples assim

    2. Ana Carolina respondeu fernanda

      Fernanda, esse post não é pra você. Simples assim 😉

      1. Fernanda respondeu Ana Carolina

        Ana , este posto e para qualquer leitora. Afinal , todas nós temos direito de expressar nossa opinião. Simples assim

        1. Ana Carolina respondeu Fernanda

          Fernanda, um post que fala de consumo consciente e você vem falar de policiamento. Levou pro lado pessoal, quando não era pra levar. Aceito e abraço as críticas, só fiz a minha colocação que isso não se aplica a quem ama jeans. E tudo bem.

          1. fernanda respondeu Ana Carolina

            bom, aí o que você escreveu volta para você : leia o post novamente. Simples.

            1. Ana Carolina respondeu fernanda

              Eu li. E me mantenho convicta

              1. fernanda respondeu Ana Carolina

                entaõ concordamos em discordar. Para mim determinar o que é interessante e quantas peças de qualquer tipo de roupa alguém precisa ter é impor regras e tão chato quanto as listas tem que ter. Para mim este blog já deu. beijos e bom fds.

    3. Thais Godinho respondeu fernanda

      Achei ofensivo falar em “policiamento”. O post traz um monte de conteúdo pesquisado e bacana e fala sobre repensarmos a relação com as peças que nós temos. É a visão pessoal da autora. Se não houve identificação, tudo bem, mas chamar o trabalho dela de policiamento foi bem pesado e desnecessário. Quem acompanha o trabalho da Ana sabe que ela é empática e ensina justamente o contrário.

      1. Ana Carolina respondeu Thais Godinho

        Peguei no calo da galera, Thais. Como se eu condenasse quem tem muita roupa – no post mesmo EU estou dizendo que EU tenho muita calça jeans e faço uma reflexão sobre. Mas coitado do jeans, ele não tem boca pra se defender.

  8. carla comentou:

    Jeans acaba virando um uniforme… Das fibras naturais, acho que é a mais forte e resistente além de não ser tão quente. Tenho tentado outras alternativas, mas muito sem sucesso no quesito durabilidade e facilidade de manutenção.
    Sobre os remendos entre as pernas, ajustes e customizações tem algumas franquias que fazem trabalhos bem interessantes (e acessíveis) tipo a Restaura Jeans.

    1. Ana Carolina respondeu carla

      Bem lembrado sobre a Restaura!

  9. Ana Carolina comentou:

    Para quem se ofendeu com a postagem, sugiro que leiam novamente. Pessoal, acho que está claro que não se trata de não usar jeans, mas de entender que não precisamos de tanto, ainda mais se não for usar! É isso, somente isso. Quem me acompanha há tempos consegue entender isso.

    1. Marina respondeu Ana Carolina

      Eu particularmente não fiquei ofendida, mas achei que faltou pé no chão na hora de malhar tanto o uso de um material que é, antes de mais nada, extremamente democrático (talvez por isso o lugar comum). Provavelmente um dos materiais mais democráticos já criados na moda. E excesso por excesso, ninguém precisa ter de nada.

      Quanto a duvidar que sejam comentários de quem te segue, sinto muitíssimo, mas te seguia há aaanos, desde o começo do blog. Se um comentário que não seja elogioso ao conteúdo te faz questionar isso a respeito de quem tá lendo, só me resta sugerir uma descida do pedestal. Nem tudo é só aplauso e gente concordando contigo.

      1. fernanda respondeu Marina

        Marina, falou o que eu penso. Aprender a aceitar críticas faz parte do trabalho de quem lida com o público.
        Também seguia há anos ….

      2. Ana Carolina respondeu Marina

        Gente, isso é levar pro lado pessoal. Apenas me referi que esse post não serve para quem não concorda com esse ponto de vista. Simples 😉

  10. Monica comentou:

    To inocente nessa rsss. Não tenho nenhuma calça jeans pq morro de calor e não consigo usar de jeito nenhum. Tenho uma saia jeans preta e uma bermuda jeans ciclista, e é só! Beijão