Você tem que ser elegante?

Acredito que com a retomada das atividades pós-vacinas, as mensagens sobre estilo pessoal têm pipocado mais nas propagandas do instagram. Depois de tanto tempo em home office, além da necessidade de recomeçar muito o que ficou estagnado nesse período para tanta gente visando também recolocações profissionais, nunca vi tanta consultora de estilo oferecendo soluções para resolver os looks das mulheres. Mas o que me chama a atenção nem é a publicidade em si, mas os argumentos sempre pautados na necessidade de parecer elegante e esta mensagem estar sempre atrelada a um discurso hegemônico e com imagens eurocentradas.

Fique mais elegante, ganhe mais auto estima, consiga destaque sem precisar necessariamente ter conhecimento pra isso – atrelaram o vestir a um valor de capital (deram até nome de capital visual, sério) e, infelizmente, por mais que eu ache isso péssimo por jogar todo mundo em uma caixinha de referências padronizadas, eu concordo que é isso que chama a atenção, sim. Triste, mas é verdade, você será julgada pelo que você veste.

Lembro de um curso que fiz que tinha uma única participante negra. Moradora da Baixada Fluminense, ela me confidenciou que se vestia de acordo com o que a branquitude considerava elegante: cabelos alisados, maquiagem clareando a sua pele, roupas parecidas com as imagens mais pinadas do Pinterest e, o principal, ela só via a possibilidade de atuar profissionalmente na zona sul carioca.

E é um fato, em todos os posts publicitários que entrei sobre o assunto as imagens eram de mulheres brancas, magras, cabelos lisos, em seus terninhos ou camisas de seda, calças de alfaiataria e scarpin. Esse foi o referencial que eu mirei por muito tempo nos meus looks, porque eu também já quis trazer mais de elegância pro meu estilo e tem muito a ver com o papo do post anterior, sobre aceitação.

A Silvia Barros, que é doutora em literatura brasileira e sua pesquisa foi sobre beleza e os atravessamentos de gênero, raça, classe e sexualidade, escreveu no meu inbox um comentário importante sobre esse tema:

“Quando se é preta ou gorda não tem muito o que fazer além de alisar o cabelo e colocar umas roupinhas que “disfarçam” as imperfeições. Quando a pessoa é mais velha, precisa fazer plástica? Quer dizer que a gente, diante da violência, só tem como ferramenta a auto violência?

Mas o que é ser elegante? É se vestir de um determinado estilo? É ter roupas de muita qualidade? É saber se portar à mesa? É votar no Lula em 2022? (OPA SIM)

Quais grifes a mulher elegante usa? Em qual bairro ela reside? Quais causas ela apoia? Qual é a sua aparência, afinal: magra, alta, loira, branca? Se você responder que não, porque a maioria das imagens de referências e das profissionais que vendem esse serviço seguem esse padrão?

Aprenda a ser elegante

Essas mulheres então ensinam outras mulheres que o conceito de elegância não só está relacionado a looks mais sofisticados, como também fazem menção uma aparência mais suave, a maquiagem em tons neutros, uma fala mansa, passos mais suaves. A etiqueta das boas maneiras que é o que se espera de nós desde a infância, na nossa socialização enquanto mulheres: fale baixo, sente-se direito, seja visualmente agradável e assim será merecedora de atenção, amor e louros.

“Ah, mas Ana, não vai me dizer que não é verdade, que esperam uma imagem da gente?” Claro, não sou uma iludida nessa sociedade que exige mundos e fundos de mulheres, mas em troca oferece misoginia. Empresas que exigem um código de vestimentas e de maquiagem mas oferecem um total de zero reais no salário para ajudar as funcionárias a custearem os padrões exigidos. Que cobra infinitamente mais da aparência feminina (sobrancelhas, unhas, pêlos, pele, pés, beleza, cabelos, corpo, tipo físico, dentes, TU-DO) do que da aparência dos homens para sermos ainda os menores salários comparativamente aos cargos ocupados por ambos os gêneros.

Para além de todo uma preocupação com os estudos, trabalho, casa, filhos, a aparência ainda é exigência máxima, introjetada como “escolhas”. Nos toma tempo, dinheiro e disposição e que visa apenas a manutenção de uma lógica patriarcal em que a carga mental feminina é infinita.

Aqui no Rio de Janeiro a Socila, escola de formação de misses, cuja fundadora, Maria Augusta Nielsen, ficou famosa por treinar jovens de classe média e alta, além de misses e faz parte até hoje do bordão dos cariocas como referência a boas maneiras (“Fulana parece até que fez Socila”). Foi objeto de estudo da pesquisadora e doutoranda Maria Carolina Medeiros, que conversou comigo no inbox do instagram (obrigada Maria, querida!) sobre o conceito de elegância atrelado a imagem pessoal e etiqueta social:

O que é elegância, afinal? Que conceito é esse aplicado às mulheres?

“É um conjunto de coisas. É exatamente o que a Socila ensinava. Elegância passa não só pela vestimenta mas pela contenção dos gestos, pela postura ereta, pela contenção no modo de falar. São muitas regras, e algumas se aplicam tb aos homens. A diferença gritante que vejo é que tá tudo bem se o homem não for elegante. Não existem escolas e manuais para que ele aprenda a ser, porque não é uma demanda. Ele é quem ele é – o Sujeito.

A mulher só é alguém se preencher os requisitos da feminilidade. Isso foi construído atrelado à ideia de que a mulher precisava se casar pra existir no mundo, e quanto mais bem sucedida a mulher fosse em desempenhar esse papel social da feminilidade, mais facilmente ela alcançaria o objetivo do casamento. E tb pelo fato delas antes ficarem restrita ao lar (claro, mulheres brancas, afinal era pra elas que essas regras eram escritas), e quando passam a circular no espaço público são entupidas de regras sobre como se portar em tudo.”

Maria Carolina Medeiros, pesquisadora

Para quem serve a elegância, seria melhor então perguntarmos. E em um mundo que está literalmente derretendo, a pessoa vai ficar sentadinha com seu terninho chanel aguardando o tsunami chegar, afinal o importante é estar no seu look monocromático, como pontuou perfeitamente uma outra leitora minha.

Por mais que estejamos inseridas nesse modelo de sociedade, não reproduzir padrões de opressão carregados de discursos gordofóbicos, racistas e misóginos, deveria ser um dever de quem trabalha com imagem de outras mulheres. Eu sei que existem demandas, mas não trabalho assim porque não quero continuar compactuando com a auto violência de mais mulheres para se encaixarem. Busquemos outras referências que contribuam efetivamente para um novo olhar para o vestir, mesmo quando não tem muito pra onde correr, pelo menos observarmos com cuidado esse tipo de discurso e no que ele contribui para a subserviência feminina, até onde acataremos algumas situações.

Para mulheres negras, por exemplo, é difícil se distanciar da atenção à imagem, por conta das cobranças maiores advindas do racismo estrutural. Mas é possível construir um trabalho de resistência, de incorporar elementos importantes, ser luta.

Moda vai muito além de deixar todo mundo vestida igual a branca magra. É ancestralidade, política, afeto, empatia, pertencimento, mensagem, conforto, diversão, funcionalidade. A dica para se vestir melhor é aquela que cabe na sua vida, na sua rotina, nos seus desejos, no seu tesão, na sua luta e no que te toca para seguir adiante.

Acho necessária uma revisão dos programas dos cursos de consultoria de imagem: precisamos ter mais discussões históricas, sociológicas, antropológicas, filosóficas, para que as pessoas entendam que moda é questão também de contexto e de estrutura.

A moda política de Elza Soares

Ontem, dia 20 de janeiro, a cantora Elza Soares encantou, aos 91 anos. Eu estou particularmente muito emocionada. Assisti apenas um show dessa deusa de voz rouca, e hoje eu percebo que eu sabia pouco da sua trajetória, que foi apagada e boicotada por tantos anos pela mídia. Toda vez que Elza aparecia, era mais para pontuar que ela estava se relacionando com um homem 50 anos mais novo, com roupas deixando muita pele à mostra, as muitas plásticas. Mas Deus é mulher e Elza pode continuar e modernizar sua carreira com lançamentos aclamados principalmente pelo público jovem.

Com a potência inigualável da sua voz, Elza rasgava e remendava nossa alma, como bem pontuou minha amiga Maria Karina. Esse atravessamento tocava porque ela cantava para os seus; a negritude, o povo. Elza veio do povo, nascida no que é hoje Padre Miguel, depois moradora de Água Santa, subúrbio carioca, nunca deixou de olhar pra trás e compreender o que representava o seu canto. Sua voz e seu corpo vestiam seus protestos e é sobre isso que vamos falar, algumas histórias dos figurinos de Elza Soares que foram pura representatividade.

be10aaa2bad0e2656b694d641a329227

Forçada por seu pai a casar aos 12 anos com um amigo dele, *ela ia levar café pro pai no trabalho e se abaixou pra ver um louvadeus, o menino bateu nela, os dois rolaram na briga e o pai pegou. Achando que estavam tendo relações, ele forçou o casamento. Elza teve o primeiro dos oito filhos, aos 13. Dois deles morreram ainda bebês, de desnutrição. Seu marido contraiu tuberculose e ela teve que trabalhar fora para poder vencer a fome e a miséria – trabalhou inclusive no Hospital Psiquiátrico em que Nise da Silveira desenvolvia seu trabalho, e furtava a comida quando todos iam embora. Voltou a ter que cuidar da casa quando o embuste melhorou. Impedida de estudar, sem perspectiva de sair daquela vida, reuniu forças para participar do programa de calouros do compositor Ary Barroso, na Rádio Tupi, há 68 anos atrás, e tentar ganhar o prêmio.

Elza pegou com sua mãe um vestido emprestado para ficar mais apresentável, mas, com a sua silhueta esquálida, precisou enchê-lo de alfinetes para que coubesse. Ao subir no palco, Ary estranhou aquela figura mal enjambrada, a plateia começou a rir, e ele a questionou “De que planeta você veio, minha filha?” Elza foi categórica “Eu venho do mesmo planeta que o seu, Sr. Ary, o Planeta Fome!”. Os risos cessaram, Elza soltou sua voz e foi nomeada ali mesmo uma estrela que nascia.

6a6b3e6484e235d20364bae1b09e9426

Ela se autoreferenciou na história dos alfinetes, no início da sua carreira, para encomendar o figurino do disco e da turnê “Planeta fome”. Ser sua própria referência é saber que a sua história era potente demais, e isso não é para qualquer ser viente não, meus amigos. Em uma alusão ao vestido de alfinetes, o traje justo, com mais de 2 mil alfinetes, o trabalho de figurino da marca de upcycling curitibana H-AL (que vou contar com mais detalhes abaixo), trouxe a versão punk de Elza, que honra suas memórias e não se deixa apagar jamais. O álbum reune músicas de protesto e políticas, como a da foto, que gravou Comportamento Geral, de Gonzaguinha.

elza-soares-por-pedro-loureiro-002-

“Fui espetada a vida inteira, passei fome de comida e hoje tenho outras fomes. Nesse novo figurino quis simbolizar o que sentia, o que sinto. Naquele dia só sentia os alfinetes me espetando”, diz Elza no texto de divulgação do álbum.

IMG_0350

A valorização da moda ética e artesanal

A parceria com os amigos da H-AL, que desenvolvem seu trabalho de criação em Curitiba de peças assimétricas, de formas criativas, a partir de sobras de tecidos, como vestidos de noivas de desapego, trouxe à cena uma Elza que valorizava uma moda ética, artesanal, sustentável e feita no Brasil. Eu tenho peças da marca e pude visitar a loja-atelier que eles tinham e era algo sen-sa-cio-nal, um trabalho primoroso de upcycling.

“Por intermédio de um amigo, o estilista da H-ALAL, Alexandre Linhares, conversou rapidamente com Elza no camarim de uma turnê, mas tempo suficiente para o carismático criador apresentar algumas fotos de seu trabalho e receber uma encomenda da cantora: um vestido com rosas. Ela se recordou de quando o compositor Lupicínio Rodrigues, no final dos anos 60, lhe ofereceu rosas ao final de um show na Boate Texas, no Rio, dizendo a batida frase das cantadas baratas: “rosas para uma Rosa”. Esquiva, ela retrucou algo como “não sou Rosa e não gosto”. Era mentira, e ele também sabia que ela era Elza e não Rosa e tinha ido conferir a interpretação de sua música “Se Acaso Você Chegasse”.”

Trecho retirado daqui porque a mãe aqui não deu conta de escrever tudo do zero, então tomem os créditos. 🙂

IMG_0353

Pouco tempo depois do encontro em Curitiba, Elza Soares recebeu novamente Alexandre Linhares, dessa vez em São Paulo, acompanhado de um vestido transparente de tule, com duzentas rosas vermelhas aplicadas e bordadas – todas feitas à mão.

IMG_0354

Para o figurino do show “A Mulher do Fim do Mundo” foi uma peça mais atrevida, dark, que foi moldada no corpo da cantora. Um macacão preto de vinil (encomenda dela) com chifres no ombro (sugestão dele) feitos com massa de modelar e correntes que descem pelo corpo. 

IMG_0356

Elza foi símbolo do empoderamento negro, viveu as dores mais profundas que um ser humano pode aguentar, mas se manteve firme para levar a sua voz e sua luta para mais pessoas. Dizia que a mulher do fim do mundo é aquela que não tem medo de viver – ela não temia nada na vida, mas tinha medo de sentir medo. Elza olhou nos olhos da morte, das drogas, da violência, do racismo, da misoginia, da fome, da miséria, e cantou. Sua voz levava as vozes de todas nós.

Cantou sobre traição, cantou sobre o gozo (“Pra Fuder”em seu ábum A Mulher do Fim do Mundo), cantou sobre o amor, cantou sobre violência doméstica (“você vai se arrepender de levantar a mão pra mim”), cantou sobre a desigualdade, cantou sobre racismo (“A carne mais barata do mercado é a carne negra”), cantou o feminismo. Elza cantou por todas nós, por isso tamanha potência, por isso a sua voz nunca se calará.

Viva Elza. Saravá, rainha!

IMG_0357

(foto de editorial para o caderno Ela, do jornal O Globo)

* editado 24/01/2022 às 15:45. Os amigos de Elza, da H-AL, me contaram a versão dela sobre seu primeiro casamento. Nas versões que li diziam q ela sofreu abuso; nessa entrevista para Bruna Lombardi, Elza contou o que realmente aconteceu.

Fonte:

Wikipedia

A Escotilha

G1

Uma conversa sobre aceitação

“Ao escolher uma roupa pense na imagem que você quer passar com ela” quem nunca ouviu essa frase? Existe uma história, reverberada à exaustão por consultoras, de um estudo que vc tem meio segundo pra impressionar alguém, e por conta disso você deve se preocupar principalmente com a linguagem não verbal, o vestir. Sempre fico incomodadíssima com esse argumento, que acho bem desonesto, ainda mais como estratégia de venda de um serviço que deveria ser um suporte para mulheres e não uma espécie de coação.

O vestir realmente pode impressionar ou afastar, mas isso não depende de vc: as pessoas reproduzem padrões, cada uma tem um referencial próprio, ainda mais se considerarmos a socialização feminina que molda nossas preferências e atitudes desde a primeira infância (e descrita magistralmente no livro O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir).

Mas, veja, o que pode repelir algumas pessoas, pode aproximar outras tantas. Não dá para viver se pautando exclusivamente em agradar o máximo de pessoas possível, isso é irreal.

Como cobrar a aparência de alguém que acabou de enterrar um ente querido? Como cobrar de uma mãe sozinha nos cuidados do seu bebê uma preocupação estética quando, intrinsecamente, ela tem como prioridade no momento garantir a vida e o bem estar desse serzinho? Parece injusto, não? E é. Até porque você nunca saberá tudo que essa pessoa está passando. Mas continuamos a ser cobradas e a cobrar mesmo assim.

Vivemos em um senso comum de sociedade que diz que você tem que se preocupar com os outros desde sempre. Se não comer tudo, mamãe chateia. Se não vestir a roupa que a tia deu, ela vai ficar triste. E crescemos ouvindo que o foco tem que ser sempre no que o outro vai pensar, o que vai achar de nós, para sabermos se seremos merecedoras de amor ou não.


Eu lembro quando demorava horas para me vestir, trocava de roupa inúmeras vezes pensando no look fodástico para o evento. Chegava a comprar roupa em cima da hora, de tanta cobrança. E quase sempre ficava frustrada, porque não me vestia pensando no meu conforto (e aqui não é só sobre roupa básica, etc, é sobre conforto de estar vestida de si mesma), mas no medo de ser julgada, de não ser vista como ~estilosa.

Sabe, a roupa que eu usava foi importante para eu mostrar minha personalidade, para eu me sentir melhor na minha pele por conta do vazio que sentia em mim, da insegurança, da crítica severa – mas roupa mofa, rasga, fica pequena ou larga e deixa de servir. Tenho muitos looks aqui que eu olho hoje e vejo o esforço de me adequar, para fugir das críticas e ser socialmente aceita. E me acolho nesse passado, porque foram as ferramentas que eu tinha disponíveis na época para me proteger e me fortalecer.

Não dá para ignorar o contexto social

Vivemos em sociedade, por isso não podemos ignorar que precisamos sim nos vestir de acordo com certas adequações. e regras Não dá pra falar para alguém se vestir do jeito que quer e dane-se os outros, é necessário avaliar o contexto e onde sua liberdade ultrapassa a do outro. Mas temos que considerar que a pressão que sofremos constantemente é absurda, desumana, proposital para gerar lucro à uma indústria de procedimentos estéticos e de beleza (o Brasil é o quarto país no ranking mundial de gastos com produtos de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos segundo a Euromonitor), fora a apropriação de discursos com base em liberdade e autoestima que só servem para falsear que temos escolhas, basta querer.

Não temos tanta liberdade, não. Se eu não for bem na entrevista de emprego, não conseguirei ter autonomia financeira, por ex, e isso é essencial para nossas vidas. Nos é ensinado, como eu disse, a buscarmos a aceitação alheia passando por cima da nossa saúde, do nosso prazer, dos nossos limites, e é esse o alerta: não dá pra ignorar o contexto social, mas é importante atentar-se ao que se faz e como se veste sem considerar quem se é e ter respeito por você antes de tudo. É com pesar que observo tantas mulheres buscando primeiro o amor de um homem a outros tipos de realização (e me incluo aí, viu?).

Esse video da linguista Jana Viscardi sobre a indústria dos grisalhos que cresceu na pandemia é perfeito para ilustrar o que estou escrevendo aqui:

o que será da gente sem a roupa perfeita? O que seria do mundo se nos vestissemos pensando apenas na roupa que faz carinho no corpo, no que é funcional, com o que te faz sentir bem (e não importa se é toda de paetês ou de uma malha leve), que seja gostosa de estar dentro, ou querendo aparecer pavão total mesmo, com a finalidade de buscarmos ao máximo, e dentro do possível, nos sentirmos bem conosco? Certamente gastaríamos menos, teríamos mais tempo livre para outros projetos, para estudar e descansar.

Quais foram as mudanças após dois anos de pandemia

Oi, gente! Tem alguém ainda aí? 🙂

Sei que não fui constante no blog nos últimos tempos, mas eu sei que vcs entendem. Espero esse ano conseguir reformular o layout dele, ser mais assídua e melhorar também os comentários, que ficaram prejudicados com a desatualizaçao do layout.

Estamos chegando a quase dois anos de pandemia e preciso falar das mudanças que aconteceram nesse período. Todo mundo já sabe que ninguém saiu melhor dessa, que o consumo na verdade aumentou – ele só desviou de foco, com as marcas direcionando a lista de desejos para homewear, pijamas, meias, robes, chinelos. Marcas de roupas de carnaval se reinventaram fazendo robes com biquinis, marcas de kimonos decolaram por serem peças boas para se arrumar em casa.

Nos acostumamos com conforto, trabalhar sendo visto só do busto pra cima, com a câmera do Zoom desligada, sem precisar usar sapatos (isso para as muitas pessoas que tiveram seus trabalhos migrados para home office), mas também nos rendemos aos paetês e roupas mais coloridas e extravagantes nesse final de ano para celebrar o mundo pós-vacina (alô coleções da Joulik e Lulu Novis para C&A, olha o consumo redirecionando de novo)!

O que restou de mim, depois de tanto?

A vida deu sinais de retorno, um sopro de esperança e leveza depois de dias tão desafiadores, ainda mais agravados em um Brasil de Bolsonaro. Tirei finalmente meus sapatos pra jogo, mas os que ainda não haviam esfarelado ou soltado a sola, já não entravam com tanto ânimo nos meus pés. Esse tempo todo só usando chinelo, desacostumei com qualquer aperto, por mais leve que seja.

Eu mudei de casa, fui para um bairro que não dá pra fazer tudo a pé, pari minha filha, me tornei mãe, enfrentei um puerpério com uma depressão, emagreci de tristeza, engordei de novo de ansiedade, não estou mais viajando direto como era antes, definhei por não me movimentar como fazia no meu dia a dia mesmo, coisas simples, nem digo exercícios; perdi muitos trabalhos e nem sei mais o que quero da vida, a maternidade mexeu com muita coisa aqui. Em resumo: não sou a mesma Ana, definitivamente.

Antes minhas roupas eram pensadas nas viagens a trabalho, palestras, aulas, eventos. Eu não me sinto mais tão sociável, pelo contrário, fui encontrar poucas pessoas, não me imagino frequentando eventos tão cedo, ainda mais com Nina a tiracolo.

Moda é comportamento. E não tem como o nosso vestir não ter sido afetado em dois anos pandêmicos, com tanto desgaste físico e emocional.

Encarando as roupas de novo

Minhas roupas são antigas, há muito deixei de comprar, adicionei uma coisa aqui e ali também graças aos recebidos, mas tem sido um exercício amargo, digamos assim. Muitas não servem porque aumentei barriga e busto, outras porque agora amamento e precisam ser funcionais, outras não são boas para brincar com uma neném por terem a saia muito comprida, tecidos delicados ou decotadas demais…olho, olho, olho e tenho usado as mesmíssimas peças, até porque não disponho mais do tempo que tinha antes para escolher, com uma bebê gritando MAMAINNN e puxando meus brincos, rs.

O meu encontro com o meu guarda-roupa vem sendo um mix de incômodo com diversão. Tenho redescoberto algumas peças, o que é ótimo, além de repensar novamente várias que continuam aqui. Acho que não vai sobrar pedra sobre pedra, mas infelizmente terei que me virar ainda com o que tenho.

Reencontre seu guarda-roupa. Observe tudo sem julgamentos, com menos cobrança, refletindo sobre quem somos hoje, o que mudou, o que queremos pro futuro, pensando nos desejos de acordo com as novas necessidades.

Tem sido um bom exercício, apesar de algumas crises. E pra vocês, como foi o vestir no retorno às atividades? Bom, por ora ficaremos quietos ainda, por conta da nova variante, mas vamos q vamos.

Testei desodorantes de roupas

Se tem uma função que eu tenho preguiça é lavar roupa, mesmo quando é a máquina que lava, rs. Separar por tecidos, cores, tirar do varal a roupa depois de duas semanas, dobrar, guardar, zzzz hahaha! Tem outra coisa que me faz evitar lavar tanto minhas roupas, que é a ação macânica reduzir a vida útil delas, desbotar, desgastar mais rápido. Aliás, sabia que jeans não se lava quase nunca? E, pior, se você usar amaciante detona as fibras da peça? Entonces.

Por isso há alguns bons anos eu me tornei adepta de deixar a roupa arejando à sombra, em uma arara à parte ou um local com boa ventilação e borrifar algum higienizador/desodorante de roupas nelas. Dou umas sprayzadas desses produtos com ação antibactericida e perfuminho e pronto, OU faço meu próprio produto em casa, o que é infinitamente melhor pro meio ambiente (em relação às embalagens e quimicas nos sabões em pó/líquido, amaciantes, que não são, na sua maioria, biodegradáveis), pra pele e pro bolso.

Quero esclarecer que:

1) eu avalio o estado da peça pra ver se não está com aquelas manchas amareladas de suor (as minhas ficam demais na gola e suvaco), se não tem outras manchinhas que, nesse caso, limpo pontualmente ou se não foi aquele dia que você termina PODRE de suada, sentou no chão, etc

2) não uso o jargão “assim economizo água” porque quem acaba com nossos reservatórios é o agronegócio, não a mãe que quer tomar um banho de 15 minutos.

Também pode ser uma boa para roupas guardadas há um tempo, com aquele cheiro de mofo mas não sei se o cheiro sai completamente dependendo dele. De qualquer forma, eu guardo as roupas depois ou então as uso novamente naquela semana para assim, então, botar pra lavar.

Pode ser interessante um produto assim justamente para garantir também a impecabilidade de quem não quer nem pode abrir mão dela. Um reforço, o quebra galho na emergência quando não vai dar tempo de lavar a peça, assim como para regiões que não tem como lavar roupa sem esperar 10 anos pra secarem e só querem mesmo resolver um futum de leve e pronto, haha!

Vamos lá, vou falar das que já testei:

Comfort Refresh

Fiz um post sobre ele em 2019, e gostei dele na época. Um perfume até que gostoso, aplica diretamente onde está mais crítico, tipo onde fica encostado o sovaco.
Benefícios: refresca entre lavagens; perfume refrescante; ajuda a desamassar sem passar; neutraliza mau odores como tabaco, frituras, fumaça, suor, mofo.

Mas depois eu usei novamente e observei como o chão ficava ensaboado desse negócio. 🙁 Não acredito que seja também o melhor amigo da natureza, precisaria ler de novo a composição, mas deve ser cheio das químicas. Custa em média 18 reais.

VISTO BIO

A marca já me mandou um oi, eu pedi pra testar mas nunca me mandaram, aí também não comprei porque achei ele caro demais. Então não posso dizer que já testei, mas algumas seguidoras já me falaram que adoraram, que funciona bem e a fragrancia é suave. Como ele tem essa proposta biodegradável, de composição natural, já gosto mais. No Youtube você encontra algumas resenhas sobre o produto.

Na descrição: Visto.bio te Ajuda a Preservar Suas Roupas e o Planeta. Sprays que Eliminam o Mau cheiro e Protegem Contra 99,99% dos Microrganismos, é um produto natural, vegano e hipoalergênico.

Receita caseira desodorante natural de roupas

Pra mim, a melhor opção disparado. Primeiro, por ser econômico: você provavelmente deve ter tudo isso em casa, e vai render infinitas vezes. Segundo, é o mais sustentável de todos, é só colocar em um borrifador que você já deve ter em casa também! Não agride o meio ambiente, não é alergênico, não tem uma cacetada de química.

Receita simples e fácil:

100ml de água filtrada
200ml de vinagre de álcool
200ml de álcool 70%
opcional: gotinhas de óleo essencial de sua preferência

Misture tudo em um frasco com borrifador spray.

Modo de usar:

Borrifar nas roupas penduradas em um cabide, em local arejado e sem sol direto. O vinagre tem ação antibactericida, previne e combate mofo e não prejudica sua pele nem o meio ambiente.

Encontrei também no Youtube essa receita da Menos1Lixo:

Para evitar a suvaqueira

Você sabia que usar desodorante comum dá mais mau cheiro ainda? Fora a quantidade de química e as embalagens que geram resíduos, os desodorantes acumulam nas fibras dos tecidos das suas roupas, impregnando as bactérias e microorganismos por lá.

Então quanto mais a gente usa, pior fica 🙁 Principalmente se o tecido for sintético, que não é respirável. A solução pode ser usar desodorante caseiro natural (tem várias receitas no livro e site da Uma Vida sem Lixo) – eu uso o desodorante em barra sem alumínio e vegano da Alva (e tem refil da pedra) ou outros naturais como da Relax, da PuraVida, e da Visto.Bio que também é desodorante.

Deixe de molho suas roupas em uma solução de água e de vinagre de álcool ou vinagre de maçã ou lysoform por uns 20min antes de lavar, para ajudar a matar a proliferação de bactérias.

Enfim saiu a padronização dos tamanhos das roupas femininas!

Entrar em uma loja e não encontrar uma peça com modelagem que vista bem, ou mesmo vestir tamanhos diferentes dependendo da marca é um problema que muitos consumidores brasileiros enfrentam pela falta de padronização da tabela de medidas de roupas das confecções.

Tamanhos completamente aleatórios contribuiram para que mulheres ao longo de tantos anos fossem as maiores vítimas de um sistema que tenta excluir pessoas com corpos minimamente fora do padrão. Não importava se sentir bem na roupa, a sugestão velada e, muitas vezes, declarada pela equipe de vendas nos provadores, era que se emagrecesse para que as roupas pudessem caber. E como ter parâmetros se o tamanho 42 de uma loja era o tamanho 46 da outra? Se o G da calça mal passava da bunda da cliente? Claramente uma estratégia gordofóbica de tantas e tantas marcas que não queriam mulheres fora das proporções e do ideal de magreza dentro das suas lojas.

Infelizmente muitas mulheres também idealizam um tamanho menor na hora de escolherem roupa.

Em 2019 eu escrevi um post sobre as consequências da falta de padronização, mas parece que finalmente chegou: a Associação Brasileiras de Normas Técnicas (ABNT) aprovou, neste mês, uma nova norma para as tabelas de medidas, a NBR 16933. Ela vai do tamanho 34 ao 62 e contempla dois biótipos femininos, colher e retangular. Conduzida pelo Comitê Brasileiro de Têxteis e Vestuário da ABNT, a novidade é fruto de um diálogo extenso com muitas instituições e setores, como o Senai Cetiqt, Associação Brasileira de Plus Size (ABPS) e empresas do setor.

Essas medidas servem como referencial para as tabelas de medidas usadas indústria do vestuário, mas o não uso ou a falta de padronização dessas tabelas nas confecções provoca grandes dores de cabeças em quem produz moda e quem a consome: a moda sempre excluiu pessoas com corpos não-padronizados, sendo sempre gordofóbica e capacitista.

Quando começamos a tabelar medidas corporais para as roupas? 

A partir das revoluções industriais que tiveram início no século XVIII, a Indústria Têxtil se desenvolveu de tal forma que possibilitou a produção de roupas em larga escala no século seguinte. 

Para tanto, foram realizados estudos antropométricos para a indústria do vestuário, que viabilizaram as primeiras grades de tamanhos de roupas para a produção em série. 

Esse tipo de produção teve crescimento significativo após a Segunda Guerra Mundial e, com o conceito de prêt-à-porter, ou pronto para vestir grandes marcas passaram a democratizar suas criações através do prêt-à-porter, ou pronto para vestir, impulsionando a Indústria da Moda com produtos de mais qualidade e variedade de estilos. 

Apesar de haver um referencial de tamanhos do corpo humano, cada confecção produzia peças a partir de medidas que entendiam ser o padrão de corpo de seus consumidores, ou seja, não havia um critério universal. 

Isso mudou em 1969, quando a Organização Internacional para Padronização (ISO, na sigla em inglês) determinou que cada país deveria se basear nos biótipos nacionais para padronizar suas medidas.

O biótipo padrão é o retangular

As novas necessidades do mercado de têxtil e de vestuário, juntamente com o surgimento de novos tecidos e o avanço da tecnologia, a norma de 1995 deixou de vigorar em 2012, ano em que começaram as pesquisas para entender, de acordo com mudanças sociais também, os referenciais mais próximos da realidade do corpo das brasileiras . Em 2015, quando estava pronta para ser lançada, a ABPS sinalizou a falta de tamanhos maiores na grade. Começou, então, outro processo de revisão, que só terminou neste ano.

fonte:

Dessa forma, além das informações do tamanho, as etiquetas das roupas passariam a ter também medidas corporais de referência sobre as quais determinada peça foi feita, de acordo com as proporções de biótipos.

Senai Cetiqt conduziu sua pesquisa SIZEBr que serviu de embasamento para a nova norma, que começou em 2006 e utilizou um body scanner, um tipo de aparelho que consegue captar e computar rapidamente medidas antropométricas, para percorrer o país. Ao todo, mais de 10 mil pessoas, com idades entre 18 e 65 anos, foram medidas nas capitais dos 27 estados do Brasil.

O projeto tem um documento com todas as referências dessa pesquisa e uma live gravada no canal do Senai Cetiqt, de onde retirei o gráfico acima, mostrou que, diferentemente do que sempre foi divulgado, o biotipo padrão da mulher brasileira é retangular: 76% contra os 6% ampulheta!

Faltam referências de pessoas gordas na nova norma

De acordo com a matéria na revista Elle, infelizmente a nova norma não vai resolver muitas questões. Primeiro que as marcas não serão obrigadas a adotá-la; segundo, que passa por uma preocupação por modelistas que desenvolvam designs capazes de deixar os corpos confortáveis nas roupas, que as marcas possam divulgar suas tabelas e mostrar como mulheres podem medir seus corpos e entenderem a importância de se conhecerem para não ficarem à mercê de mais regras.

Por fim, o mais grave é que a pesquisa SizeBr não contou com a participação de um número importante de pessoas gordas que, segundo eles, não se sentiram à vontade com a medição dos seus corpos – e isso impactará certamente no desenvolvimento de roupas pensadas na também diversidade dos corpos gordos.

A empresária à frente do Pop Plus, maior feira de moda plus size da América Latina, Flavia Durante, deu entrevista à publicação desacreditando desse novo padrão, criticando marcas que notoriamente usam a bandeira da diversidade mas sempre excluem os corpos gordos de campanhas, não projetam lojas que os atendam nem treinamento de equipe.

Vantagens da padronização da tabela de medidas

Apesar de não serem de uso obrigatório por parte das confecções, as normas da ABNT para o vestuário são ferramentas muito úteis para que as marcas se adequem a diversidade de biótipos, uma vez que as tabelas de medidas referenciais já passaram por estudos, foram discutidas e aprovadas por especialistas da área. 

O site da Audaces, que trabalha em inovação tecnológica para a moda, fez uma lista de vantagens dessa padronização:

Como resultado da falta de padronização, o consumidor de moda vê uma experiência que deveria ser prazerosa se transformar em uma busca cansativa por uma peça de tamanho correto, confortável e com boa vestibilidade. 

1. Ajuda a identificar os biótipos do público-alvo

Com uma tabela de medidas padronizada, fica muito mais fácil conhecer quem usa determinado produto e quais os tamanhos da grade mais tem saída nas lojas. Também é possível saber qual é o biotipo que mais se encaixa no público-alvo e ter essa informação como referência para novas criações.

2. Facilita a modelagem

Trabalhar com tabelas planejadas de acordo com diferentes proporções, tamanhos e formatos corpóreos facilita a interpretação de medidas, a criação de bases e a confecção de moldes de qualidade. 

O resultado de uma modelagem feita a partir de uma tabela de medidas, estudada para ser aplicável a diversidade corporal dos consumidores, são modelos ergonômicos e esteticamente agradáveis

A padronização da tabela de medida também otimiza o processo de reutilização de bases e a gradação de moldes para tamanhos além do utilizado na peça-piloto.

3. Reduz desperdícios de materiais

Servindo de base para a criação, modelagem, orientação da costura e controle de qualidade dos produtos, a tabela de medidas padronizada ajuda na redução de resíduos e desperdícios de materiais. 

Isso porque é possível garantir uma menor taxa de erros e retrabalhos, tornando o processo produtivo muito mais sustentável desde a peça-piloto. 

4. Facilita compras em lojas online e físicas

A partir das grades de tamanhos padronizadas segundo as normas técnicas da ABNT, é certo que os modelos terão melhor caimento e conforto na maioria dos biótipos brasileiros. 

Isso facilita tanto a compra em loja física, quando não é possível provar a roupa em loja — como no caso da escolha de presentes — quanto a compra em lojas online.  

5. Reduz o tempo de provador

Quando uma coleção é trabalhada sobre uma boa tabela de medidas, o processo de prova da roupa é muito menor. Se o cliente bate o olho em uma peça e gosta muito dela, por que frustrar o desejo de compra por incompatibilidade de medidas?

6. Reduz troca e devolução de produtos

Troca e devolução de produtos representam custos consideráveis para a confecção, uma vez que as peças que sobram de uma coleção entram em ponta de estoque e o lucro sobre ela se torna menor. 

7. Fideliza clientes

Satisfeito, um cliente sempre tende a consumir novamente e recomendar uma marca, o bom caimento e a modelagem se tornam um diferencial, entre tantas marcas que não possuem medidas pensadas de acordo com seu público-alvo. 

Referências para esse post, trechos retirados:

O DEBATE SOBRE A PADRONIZAÇÃO DE MEDIDAS NA INDÚSTRIA DA MODA

8 vantagens da padronização de medidas do vestuário

O ônus de ser mulher

Estava no início da minha profissão de designer gráfica e eu era a garota suburbana que tinha que provar sempre pro pessoal da agência do Leblon que estava apta ao cargo. Sem grana, garimpava peças interessantes para compor meu estilo de designer. Um dia eu morri de amores por uma mule verde besouro cintilante e a desejei muito. Consegui tê-la na liquidação, e fui toda feliz mostrar o achado que deixaria meus looks incríveis com a colega do escritório.

Ela olhou o sapato com desdém e lançou: “você tava falando outro dia que não tinha grana pra estudar inglês. Ao invés de gastar com sapatinhos, invista no seu estudo”. Me senti péssima, como se eu estivesse proibida de também desejar, essa necessidade de pertencer para vislumbrar um cargo melhor, e como se deixar de comprar o sapato me faria ter grana pra pagar um curso de meses.

Essa mesma colega estava sempre vestida do seu traje oficial tênis + camiseta + jeans. Eu achava o máximo a sua fidelidade ao estilo, despojada e cool. Até que um dia, na copa, ouvi outros colegas comentarem “e fulana né? Tá sempre com aquela mesma roupinha e tênis. Se eu fosse ela, pegava a grana que ela só gasta estudando para comprar peças melhores”.

Já gastei com roupas o que poderia ter economizado pra vida. Já economizei por anos pra fazer viagens e cursos de formação. Mas continuo sem falar inglês fluente 😬 Talvez meu estilo fosse minha sobrevivência, mais que o inglês, que sempre me virei. Talvez. Talvez essa amiga quisesse muito mostrar seu valor, e isso não seria compatível com as tais futilidades da moda. Talvez ela desejasse que mulheres fossem independentes financeiramente e por isso não deveriam ceder a apelos consumistas, talvez ela fosse alguém prático apenas hahah

Vinte anos depois desse causo, já vi tanta reprodução de opressão a mulheres baseada nos seus desejos e o que se supõe que seja prioridade pras suas vidas; nos estereótipos do que se espera de mulheres comprometidas com suas carreiras e a medição social da importância que dão a isso. No final, não importa o que queremos provar: não existe escapatória do ônus de ser mulher.

(jamais esquecendo o recorte racial e social que traz muitas outras camadas)

Tirando o shortinho da gaveta

A gente também usa roupa curta🤙🏻
Ontem avistei uma garota de shortinho na rua, um metro de perna e o short bem curto. Lembrei na hora desse meu famoso shortinho, que eu usava tanto há uns anos atrás, mas tanto, que já fui reconhecida em uma roda de samba por causa dele, hahaha!

O bonitinho estava aposentado porque eu havia engordado e não fechava mais. Logo depois engravidei, veio pandemia e até pensei em vender. Mas ele voltou a servir (bem que vcs falaram que o corpo continua mudando), mas minhas pernas definharam muito nesse período, zero vontade de aparar os pelos, essas coisas.

Aí minha referência foi essa mulher de 20 e poucos anos, na RUA (fora do Instagram, ufa), que me deixou saudosa de botar as pernas pra jogo (e eu sempre amei minhas pernas!), e como eu também usava demais shortinho – como boa carioca que penava no calor do Andaraí. Por que não resgatar esse recurso tão fresco e lindinho para os dias de calor que já já chegarão, né, minha gente?

Eu sei que muitas vezes deixamos de usar tanta coisa por medo, fora um monte de outras cobranças que impactam nas nossas escolhas. Mas tamos aí trazendo, quem sabe, um sopro de ânimo e inspiração.

Higiene pessoal atrelada a aparência da mulher

Papo sério sobre atrelar imagem a higiene 🌫 Essas fotos são de outro dia, que já postei aqui, o look mais que repetido, camisa que vocês viram muitas vezes desde que ganhei. A foto só reflete a quantidade de vezes que repeti essa roupa desde que tive ideia desse look. Muitas. Praticamente só trouxe esse e mais meia dúzia de roupas pra casa da minha mãe. Inclusive usei com manchas de mãos sujinhas de neném. Deu certo? Gostei? Serve para diversas ocasiões? Tô repetindo até sentir que precisa lavar mesmo.

Certamente falo do alto dos meus privilégios de não ter medo de ser apontada de anti higiênica – tenho uma raiva disso, aliás, o que considero o puro suco do racismo e classismo. Acho que passou da hora de procurarmos justificativas mais plausíveis que não coloquem em julgamento a higiene das mulheres como algo atrelado às suas imagens.

A mulher, segundo as regras sociais, precisa estar sempre preocupada com isso e impecável, o que envolve atenção aos cuidados domésticos (lavar roupa tá incluso aí) e a expectativa social de que devem se apresentar sempre limpas e cheirosas, isso inclui unhas e pelos. Essa semana, aliás, me senti vitoriosa que consegui aparar as unhas, imagina.

Mas vamos ao cenário real da maioria: várias baldeações. Transporte lotado. O dia todo pra lá e pra cá. Como faz pro final do dia? E a mãe que não tem ajuda e não conseguiu tomar seu banho em paz?

“ah mas higiene é algo importante”. Claro, e isso é inerente, mas também tem uma base na cultura de cada lugar, e numa construção social: a mulher precisa ser lembrada o tempo todo de TRANSPARECER estar limpa. Tanto que sempre vejo post de várias profissionais de moda falando que não precisamos lavar tanto nossas roupas, que elas duram mais quando não precisam passar sempre pela ação mecânica do tambor da máquina ou do esfrega esfrega (e estão certas, é verdade!) mas tb sempre baterem nessa tecla, como se não pudéssemos lembrar do nosso banho, cuidado básico e o que é realmente necessário.

Roupa limpa e bem cuidada, bacana, claro. Mas e se acontece algo no meio do caminho com essa roupa? Uma poça de lama, o absorvente que vazou? Já era? Toda a competência e maravilha dessa mulher foi maculada?

Aliás, acabei de ler uma reportagem que uma militar foi lavar a sua calça após vazar seu absorvente, teve que buscar comida com roupas comuns e foi PRESA por desacato.

E vai querer comprar roupa boa, então. Não tem. Pelo menos não pro nosso bico. A maioria que temos nas lojas são roupa de poliéster – veja se na sessão masculina oferecem tantos tecidos sintéticos assim. Poliéster dá mau cheiro. O que fazer então?

Sabendo disso tudo, também considero importante mostrar que estou acolhendo meu cansaço e escolhendo as batalhas diárias, de quem não tem tempo nenhum longe da filha e decide pelo esforço mínimo: repetir e repetir a roupa que deu certo, a que se sentiu bem. Com desodorante de roupa, um tempo arejando, foi!

A desfaçatez humana poderá te indagar “mas de novo essa roupa?” 🙄e é por isso que eu já vou ensinar pra vocês uma reposta que eu sempre passei para as minhas clientes de consultoria de estilo:

-Vai.catar.coquinho.Cuida.da.tua.vida

Obviamente você pode substituir a frase por outras que melhor se adequem a situação.

Análise Lulu Novis + C&A

Essa análise entrou no Instagram semana passada e peço desculpas pelo atraso em postar aqui. Estava engrenando com o conteúdo no blog mas meu marido se acidentou de bike, meses de molho e estou tendo que dividir os cuidados da Nina com minha mãe. Tá fácil hahahahaha só que não.

bom, vamos lá! No post anterior eu comentei que estava animada por esse retorno das colabs da C&A – que estava fazendo mais essa coisa com artista e BBB, o que nem conta, porque não era processo de criação de alguém da moda.

há tempos eu posto sobre a escolha acertada da Renner ao criar coleções em parcerias com artistas visuais, que não necessariamente sejam da moda. Uma tendência mundial, aliás, traduzir o trabalho de artistas admiráveis em roupas e acessórios. Mas não tem jeito, parece que a C&A é a empresa que mais brilha, que mais chama atenção quando cria uma Colab!

Pra mim foi uma alegria voltar. Primeiro pq né, vacinada. Lembro que antigamente era lançamento atrás de lançamento, eu estava cansada de ver roupa ruim, nada a ver com as marcas, araras empilhadas de roupas encalhadas. Eu reclamava muito aqui e tomava até esporro hahaha! Mas esse intervalo foi bom, necessário pelo momento que vivíamos é que retornou nesse período pós vacina com um vigor, cores, algo mais criativo fora do comum que vemos nas lojas.

O trabalho visual da stylist Lulu Novis é primoroso. Eu achei o que tinha muito lindo – pois é, na loja aqui perto só vieram 4 itens e mais umas camisetas e as roupas infantis. Só. Nenhuma saia, só dois vestidos e duas camisas.

Antes de tudo: achei caro. Caro demais, real oficial: as camisas custavam 260 reais. Os vestidos, mais de 300,00. “Ah, mas esse é o preço médio das coisas hoje em dia, em comparação com a coleção da Lulu com a FARM, está mais em conta” GENTE vcs leram a banalização dos mil reais? Onde que a gente normalizou que grandes varejistas, com poder de barganha, escolhem cobrar fortunas por peças melhorzinhas? Preço de marca boa, pequena, sem um milésimo desse poder de barganha, com remunerações justas, é que sabe se cobrar o que precisa, não vende. Não, gente, sei que tem marketing aí, mas perai, um vestido e uma blusa na CeA mais de 600 reais??

E mesmo assim a maioria esgotou na pré venda no site.

Todas as peças são de algodão, o tecido é bom, mas nenhuma peça era forrada. O acabamento interno era uma costura overloque.

Eu gostei? SIM! Muito. Eu adorei mesmo as cores e estampas, o que provei vestiu super bem, adoro mangas armadas, mas reitero o valor das peças que são, por isso mesmo, mais “circenses” hahaha e marcantes demais.
mas achei o caimento ótimo, vestiram de forma confortável. Provei o tamanho P, o que mostra que a modelagem tem alguma folga (as peças vão só até o GG).

Adorei essas camisas amamentáveis haha!
Gente, eu critiquei muito os preços, pq estão impraticáveis mesmo. Achei o fim. Mas fiquei feliz por ter visto peças boas na CeA. Amei o vestido vermelho e branco, que custava 299,99.

Mesmo com atraso, minhas impressões, um clássico que está de volta ao blog 🙂 E você? Comprou algo? Viu de perto? O que achou?