Uma conversa sobre sutiãs

Na mudança me desfiz de quase todos os sutiãs. Surgiu essa questão sobre ter guardado tantos modelos que eu não usava mais há tempos, porque eu já acreditei que liberdade era não usar – por anos escolhia modelos que os deixassem redondos, achava que as roupas vestiriam melhor assim. Que visão equivocada, porque muitas gostam, amam e se sentem incríveis com seus sutiãs. E essa sou eu, com seios pequenos, que não anda de ônibus e nem sai de casa há séculos. Não era justo afirmar, sob a minha ótica, o que não era realidade pra tantas.

Voltei a usar com mais frequência quando engravidei e os seios aumentaram, começaram a pesar, principalmente quando tive a Nina e veio a apojadura, que é a descida do leite. Depois dessa experiência, mantive aqueles que gosto mais, que sejam confortáveis e isso não quer dizer necessariamente bonitos, mas versáteis e confortáveis, que funcionem com blusas de tecidos mais finos também.

Fui então perguntar por que vocês usavam sutiã nos stories do meu instagram. E fiquei surpresa como rendeu centenas e centenas de respostas. Nunca tinha parado pra pensar tanto sobre o uso dessa peça, do impacto dela na vida da gente desde pequenas, a imposição por conta de formatos idealizados, ou o uso pelo prazer de se sentir melhor com ele.

Mas duas palavras foram as mais citadas: sustentação e medo. Sustentação por conta da dor nas costas, do peso das mamas, melhora postural. Mas medo, medo foi algo que me assombrou ao ler. Sempre vemos moda sendo tratada de forma divertida aqui, com leveza, todo mundo rindo enquanto dança na troca de roupas. E é gostoso demais mesmo se vestir nas cores e formas que deseja, mas o que me motiva aqui é essa outra face do que roupas representam e dos sentimentos que despertam, que nem sempre serão divertidos assim. E falar de sutiã mostrou o quanto ele é dessas que vestimos no automático, que muitas vezes não gostamos, mas se faz necessário contra assédio e julgamentos.

O sutiã – um escudo, um símbolo.

Se ver obrigada a vestir algo para não ter sua capacidade profissional questionada, para não receber olhares invasivos, para não se sentir violada, para não dar margem a questionamentos sobre o formato, tamanho e caimento das suas mamas – comentários estes que podem partir de qualquer pessoa, íntima ou não.
Nas lojas modelos sexy, com muitas rendas, ferros, bojos e laços ou aqueles que não se importa, de malha bege, sem graça.

Roupas que ao mesmo tempo parecem não ser feitas para quem usa, com tecidos que marcam, alças de blusas finas, decotes difíceis. Se por acaso ele aparece, está se insinuando, ou é deselegância, disse a consultora de moda que ignora a realidade de quem vive uma vida, e não posa. Enquanto eu mesma fico pensativa, tem mulher que pega o trem às 4h, se veste para uma luta diária, chega em casa e arranca para sentir um breve alívio no banho. Não há tempo para questionar, pq afinal o que ela tem de opção nas lojas?

Cada uma que escreveu pôde também se permitir essa reflexão. E como é importante ao menos termos consciência disso, do por quê usamos as peças de roupas que usamos, e como nos relacionamos com esse vestir.

O novo sempre vem

Tenho essa camisa há uma década, tava resgatando uns looks antigos com ela e a primeira vez que a usei foi em 2011. Ganhei de uma permuta com uma marca que nem existe mais, mas curiosamente por muito tempo a usei em looks básicos, com shorts, acho que eu a considerava ampla demais, não sei.

Mesmo assim eu não a deixei de lado, usava no dia a dia, até pra ir à praia, foi até pro meu ensaio de grávida na floresta, haha. Já ficou bem manchada de suor, eu dava uma quarada, ela rescussitava. Enfim, nunca tive medo de usá-las, mas também nunca achava os looks com ela elegantes ou interessantes.

Trancada em casa, sem eventos, com tarefas acumuladas, não tem sobrado tempo pra me arumar. Mas nesse dia Nina dormiu de manhã, e mesmo com o chão cheio de tapioca que ela jogou, haha, eu deixei pra lá e priorizei me arrumar. Me maquiei, pensei num look como eu tenho visto algumas mulheres usarem, camisão longo soltinho com calça pantalona, de tecidos leves. Antes eu tava até olhando umas lojas online achando que precisaria de umas roupas novas nesse estilo, até que olhei melhor minhas roupas…pô, elas estavam todas lá! Não precisava comprar nada!

Agora a moda tá esse cabelo partido ao meio e preso atrás, com roupas mais soltinhas acompanhando, algo meio marroquino, pelo menos me remete. Reproduzi essa inspiração adequada à minha correria materna (olha no chão os restos de tapioca que Nina jogou hahaha) e me senti tão linda! 🙂

Tenho me achado mais bonita do que nunca estive, mas esse look me animou, justo na semana em que eu falava que não estava mais empolgada para me arrumar. Não pensei muito, me vesti, me maquiei e fotografei. Com tudo que eu já tinha. Há anos. Vejam só como algumas roupas que não olhávamos da mesma maneira há uns anos atrás, podem se transformar nas diferentes etapas das nossas vidas.

O que vestir para lives e reuniões online

Nunca na minha vida eu pensei que escreveria um post sobre o vestir numa pandemia. Nunquinha pensei que não sentiria a menor vontade de me arrumar pq simplesmente não encontro motivação. Sei que muita gente manteve a rotina de trabalho presencial, mas a maioria agora faz reuniões por chamada de vídeos e participa de entrevistas em lives, e se arrumar para esses momentos é uma nova questão!

Para quem está se aventurando nesse desafio de se vestir para manter uma rotina, principalmente quem faz muitas reuniões de vídeo, a parte de cima do look virou o destaque, por ser o que aparece nas chamadas. Como se vestir para lives? Como variar a parte de cima nas reuniões do zoom?

Vou dar algumas ideias:

  1. Blusas com bom corte, em cores suaves ou neutras para quem é mais básica. Adoro golinha levantada ou gola padre e até role, dá uma estrutura bonita no pescoço. Se vc achar seu pescoço curto, pense em gola levantada mas o primeiro botão da camisa aberto!
  2. Gosto de blusas com recortes diferentes, mangas diferentes ou terceiras peças que deem um detalhe colorido/estampado. Sobreposições de blusas/vestidos também são lindas!
  3. Variar com brincos mais coloridos e leves ou colares mais próximos do pescoço, coloridos ou mais clássicos, lembrando de não serem aqueles que ficam batendo constantemente no microfone do fone de ouvido
  4. Peças com estampas coloridas, mas sem ser em cores demasiadamente neon, para não destacar tanto em vídeo
  5. Lenços na cabeça também criam uma variedade linda
  6. Armações de óculos coloridas – tenho usado muito esse recurso, primeiro pq não enxergo sem ele os comentários das lives, haha, segundo porque ele dá um destaque lindo e eu não preciso nem de maquiagem ou outro adorno!
  7. Mensagens, frases na camiseta, que ajudem de cara a reforçar seus ideiais. Outro dia gravei um IGTV sobre roupas que ferram a nossa saúde e usei uma camiseta escrita TETA LIVRE (por conta da amamentação)
  8. Rola mistura de estampas e de cores? Opa, claro! A parte de cima com um lenço, ou na sobreposição de blusa com terceira peça, com os brincos ou colares mesmo.
Fiz muitas lives com esse vestido estampado e óculos colorido!

No mais, regra de maquiagem não existe. Cada uma vai como se sentir bem, né? Prioridade desse momento. As cores dependem do que você está comunicando também. Se você vai fazer uma live sobre um assunto mais complicado, pensar em cores mais neutras, por exemplo.

Teste tudo antes!

Lembre de estar vestindo algo que você testou antes: sente-se em frente ao celular ou computador e se observe, gesticule, simule uma conversa. Veja como você se sente no vídeo, se os acessórios vão atrapalhar e bater no fone, se a blusa vai ficar caindo nos ombros, se o lenço vai cair do cabelo, se o batom não vai secar e grudar os lábios, haha. É sério, é tipo viajar com um sapato que você nunca andou com ele antes, sabe? E é importante você estar confortável com vc, pq na hora do ao vivo, te distrai ficar se ajeitando.

Se for o caso, grave de verdade ou se fotografe. Mas nada de cobranças, lembre-se que faz parte do que está acontecendo no momento, viu? Eu já tirei os brincos no meio de uma live, pedi licença e segui.

Alguém quer dividir suas experiências nesse momento? 🙂

Sem a menor vontade das minhas roupas

Depois de um ano isolada nessa pandemia, sem nenhum escape ou saidinha para desanuviar, cuidando de uma neném que nasceu no início dessa loucura, sem ajuda de rede de apoio, nem preciso falar que eu ignorei completamente minhas roupas. Sei que muita gente usou o vestir nesse período para se sentir dentro de alguma normalidade, para melhorar o astral, só agora que estou tentando esse artifício, mas muitas e muitas vezes não dá.

Isso impacta no meu conteúdo? Claro. Mas preciso ser sincera, pq até o vestir passa por um ato político. Pra mim, por enquanto, não tá dando. Estou, enquanto isso, tendo boas ideias de cursos, temas de conteúdo, e até vídeos, coisa que nunca havia feito aqui!

Processed with VSCO with g6 preset

Acho que tem sido importante atravessar essa fase sem olhar pra roupas, para observar mais e mais o que de fato me deixa feliz ao vestir, ou que seja funcional mesmo. Essa obrigatoriedade do tem-que-se-arrumar depois que se é mãe, confundindo todas nós, sendo mais uma forma de tirar a atenção e foco de outros processos, me irrita. É importante se sentir bem nesse momento, claro, mas eu percebo a aceleração que o mundo nos coloca, o que deixa tudo mil vezes mais cansativo.

Fato é que estamos numa pandemia e eu não quis adoecer nem correr o risco de transmitir nada pra ninguém. Estou cansada? Exausta definiria melhor. Com ódio desse desgoverno e seus cúmplices? Com toda a certeza do mundo. Mas eu tô aqui, como tanta gente, tentando sobreviver e, de quebra, criar minha filha. Sem sair, sem dar meus cursos, sem ir até a esquina, pra quê desfile de looks?

Depois desse desabafo, típico da época de blogs, hahahaha, eu vou dizer algo que NUNCA imaginei: eu não to nem aí pras minhas roupas, muito menos sapatos e bolsas. Acho que tem a ver tb com outra questão, de ter me mudado pra um lugar menor e não ter mais armário. De estar tudo ainda em araras, no quarto que faz as vezes de closet, esperando que compremos os aramados e prateleiras para organizar. Mas por enquanto, é o que dá. E por conta dessa bagunça visual, dessa falta de um lugar aconchegante pra me vestir, eu esmoreci. Até porque não sei quando poderei pisar na praia do lado de casa novamente.

Vamos ver se até o meio do ano rola uma reviravolta e voltamos a ter looks por aqui.

Que situação, 2021.