O mito da roupa de ficar em casa

Eu trabalho em home office há uns bons anos, quase há uma década. Adoro, não troco por nada, mas eu esbarrava numa questão: não gostava de me arrumar em casa.

Durante meus 40 anos eu ignorei isso, e usava roupa surrada mesmo, qualquer short e camiseta. Pra dormir, a mesma coisa, não via sentido em gastar com pijama! Achava os modelos disponíveis péssimos (meu gosto, haha), com motivos infantis ou sexies demais. Achava tudo caro para o material oferecido e dormia de camiseta ou pelada mesmo, haha.

Mas veio esse vírus catinguento da porra e, com o trabalho de casa para muita gente, o capitalismo tratou logo de inventar a necessidade de se investir em homewear, com roupas confortáveis em modelagens elegantes, pantufas, chinelos nuvem, incluindo aí roupão e pijamas. Esse último então, todo mundo começou a fazer, hahaha!

Claro que existe a separação de marcas que sempre priorizaram o conforto e o slow fashion, marcas micro, que precisam também vender para sobreviver, né. Não estamos falando de oportunismo, mas de perceber também oportunidade.

E, pra mim, a oportunidade veio. Com a maternidade também, eu, que sempre tive aversão a roupa de ficar em casa e dormir, me vi comprando algumas e usando outras que já eram minhas, mas viviam encostadas – vou explicar:

Esse conjunto de kimono e calça de viscose eu comprei no início da pandemia, na Calma São Paulo. Tinha acabado de ter neném e minhas medidas estavam maiores, então minhas calças não serviam. Eu adorei o conjunto porque tem uma estampa criativa, digamos que inspirada na Marimekko. Conseguia amamentar e entrar em alguma reunião virtual sem problema!

Fora que o material, apesar de mais amassável, o que ignoro porque estou em casa, é o que permite que eu me abaixe e pegue um bebê. A maioria das minhas calças de mundo pré-pandemia são de tecidos estruturados, amplas, tecidos barulhentos, não permitem tanta movimentação e algumas tem a bainha para salto. Fora a minha mudança de medidas no pós-parto.

Ou seja: muitas roupas que tenho não estão aptas a estarem comigo em casa. Porque eu não parava em casa. Porque eu detestava ficar em casa, me sentia derrotada. Isso porque meus pais me proibiam de sair desde sempre, e eu fui criança e jovem de apartamento, de ficar enfurnada em casa vendo o dia passar. Criei pavor de estar presa em casa, e foi na terapia que eu ressignifiquei isso.

Roupa de ficar em casa x roupa de sair

Esse conjunto de top, calça e robe são de uma marca nordestina que prioriza o slow fashion, feita por mulheres, e uso de algodão orgânico paraibano. Uma delícia, tecido sem químicos. Finalmente, com o investimento em variações de pijamas e etc, encontrei uma variedade de roupas de dormir, que atendessem às minhas necessidades. Ufa!

Esse conjunto eu uso pra dormir, pra ficar em casa e não pensava em usar na rua até alguém comentar no instagram que não fazia distinção das suas roupas de ficar em casa e as de sair; como sempre priorizou o conforto, elas são usáveis nas duas situações.

Eu confesso que é claro que isso faz sentido, mas não muito pra mim, ainda. Eu ainda tenho a necessidade de pensar em roupas de sair como peças de tecidos planos, e essa história que percebi do horror de ficar em casa têm a ver com querer ficar vistosa, de sair ser um evento e eu estar vestida para tal. Mais uma vez, tenho ressignifcado isso, pq confesso que a pandemia tirou minha alegria de me arrumar pra sair.

Sem eventos e encontros, com um frio que não fazia aqui há séculos, comecei a usar roupas que estavam paradas. E to amando, viu? Não estou economizando nada, uso mesmo. Selecionei as mais confortáveis que eu já tinha, como essa calça que comprei no início da gravidez, e essa blusa de moletom. E ainda to aproveitando minhas papetes, hahaha, sapato confortável, pau pra toda a obra, que é estável pra cuidar de neném, haha!

Bom que essas peças funcionam para estar apresentável e gateeenha para algum eventual trabalho online e se eu precisar sair, também!

Ou seja, precisa comprar um guarda roupa inteiro pra ficar em casa estilosinha? NÃO. Isso é criação de demanda mercadológica. Dá pra olhar pro que se tem e exprimentar! É desfazer essa crença de roupa de missa, haha, que só se usa pra quando tiver um evento extraordinário, já que com essa doença pairando, estamos vendo que estar vivo tem sido um feito, um motivo mais que especial e urgente de se vestir pra si mesmo como um gesto de carinho, de celebração.

E com vocês, como é essa questão do vestir em casa X sair?

Qual é a imagem de uma mulher poderosa?

Hoje, em uma postagem minha no instagram, uma leitora antiga falou da identificação com meus looks atuais ser maior, mais estilo “carioca”: despojados, coloridos, com sandálias baixas e confortáveis, sem terceiras peças e saltos altos inconcebíveis para as calçadas daqui. E acrescentou que temos que desfazer no nosso imaginário que mulher poderosa é aquela que se veste de executiva ou com roupas de inspiração no guarda roupa masculino.

Durante muitos anos eu aderi a alguns aspectos dessa indumentária que me relacionava a poder e elegância. Depois, numa avaliação do meu estilo, percebi que eu amo peças com cores lisas, sem tantas estampas (estampas mais pra geométricas), com cortes e modelagens arquitetônicas, camadas e volumes. Eu brincava que gostava de me vestir à paulistana, haha, aquela coisa de roupa preta, tanto que comecei a comprar roupa mais em SP por me identificar mais com as marcas de lá do que as daqui, que copiavam demais as estampas florais coloridonas da FARM e vestidos esvoaçantes. Aff, era cansativo tanta cópia desse estilo garota carioca zona sul.

Ironicamente a blusa desse look, de 2014, é da FARM, hahahaha! Mas olha aí o que eu fazia, já mandava um blazer, uma calça escura, um sapato fechado. Aí você me pergunta, como carioca dava conta de um look quente assim? Pois é, não dava. Eu passava era raiva quando o calor chegava, odiava me vestir no verão, e culpava a estação, não o meu guarda roupa cheio de roupas de um estilo de vida que não era o meu.

Fora essa associação classista e preconceituosa que a moda colorida e despojada não pode ser elegante. Em cidades mais quentes, como no norte e nordeste, em que é impossível se vestir com tantas camadas, não são elegantes então? Não são poderosas?

Com a maternidade e a pandemia, o choque de realidade de entender, de uma vez por todas, que meu guarda roupa não estava mesmo alinhado à minha vida. Hoje, querendo conforto e praticidade pra ficar com minha neném, com os pés sem machucados e sem chulé, hahaha, eu continuo amando peças impactantes, mas elas podem ser mais adequadas ao clima e ao meu bem estar.

Mas, voltando à pergunta desse post, qual é a imagem de mulher poderosa que vem à sua cabeça?

É a executiva com terninho, andando de salto agulha fechando mil contratos? É uma mulher amamentando? É a sua avó? É a erveira que faz um trabalho de saúde pública para mulheres desassistidas? É a Beyoncé? É você mesma?

E sendo a imagem da mulher de terninho, por que terninho? Por que não fechando contratos de vestido colorido? Ou de tênis e camiseta? Por que signos masculinos (formalidade de terno, roupas escuras e sóbrias, calças alfaiataria) é que normalmente estão associados ao poder?

Um exemplo de mulher poderosa que conheci em Belém, no mercado Ver-o-peso: Tia Coló, a erveira e seus feitiços. Que energia que ela passa, nossa. Olha esse look, que maravilhosa <3 O quanto a imposição de um estilo padronizado, enlatado, superestimado por ser sudestino ou da branquitude, está arraigado na nossa mente. Uma descolonização das nossas referências é urgente para abrangermos um repertório maior de mulheres que são símbolos e referências na nossa cultura.

Sem ele, eu não seria grisalha

Foi preciso a validação masculina para que eu tomasse coragem de parar de pintar o cabelo, aos 39 anos. Foi quando meu companheiro falou, vendo minha preguiça de ir ao salão e com a raiz cheia de pontos brancos, que eu ficaria linda grisalha. Quando ele disse isso, foi o momento em que a ficha caiu para eu entender que existia a alternativa de não pintar mais.

Eu acho isso bem triste, pra ser sincera, precisar da aprovação de um homem para tomar a iniciativa. E sintomático, se observarmos um tiquinho de como funcionamos quanto sociedade. A mulher que teme não ser desejada, envelhecer sem um companheiro, que só é valorizada quando é casada. A mulher que tem que se manter em dia, unhas, cabelo, pele, dentes, poros, pés, para fazer valer o amor que ela recebe do seu amado. Se a união chegar ao fim, culpa dela que não se cuidava, falarão.

Descobri recentemente que esse era meu medo também, reflexo de uma juventude com a autoestima destruída. Por isso, mesmo com minha mãe como referência de mulher grisalha, nos anos 80 ainda, eu não conseguia tomar para mim essa possibilidade. Cresci com os colegas perguntando se era minha mãe ou avó – e olha que ela me teve com 24 anos. Eu via minhas amigas balzacas, mais recentemente, com as cabeleiras brancas e pensava na coragem que elas tinham. Ainda sugeria uma maquiagem de leve, como eu era bobona intrometida.

Fico especialmente feliz ao receber mensagens de leitoras e amigas que usaram minhas fotos para incentivar as mães, avós, sogras e amigas a se perceberem bonitas com suas mechas brancas. Ou vocês mesmas desejando ter logo fios brancos (!!!) porque se inspiram em mim. Esses relatos são especiais, porque em 2019 eu era uma das únicas por aqui – até recebi no início um spray para cobrir os brancos de uma empresa desavisada –, e claro que eu entendo que as marcas não querem perder essa fatia de mercado, que vem crescendo e se afirmando, mas também penso que são avanços significativos.

Por mais mulheres sendo as principais incentivadoras de outras mulheres. Por mais mulheres enxergando suas próprias belezas. Que essas histórias de recomeço sejam cada vez mais diferentes da minha.

Nunca estive tão bonita.

Eu sei que esse título está narcisista, mas é uma verdade que não tem como esconder, ainda mais para quem sofreu com bullyings sobre sua aparência, na rua e em casa, a vida toda. To gata bagarai e tendo uma rotina infinitamente mais SIMPLES!

Bom, eu sei que falar de quebra de padrões é algo ainda distante sendo mulher branca e cis mais próxima do que se entende por padrão, até porque as nossas conquistas individuais não correspondem ao que a maioria sofre de opressão dentro de um sistema machista, racista e patriarcal. Ainda estamos sob essa lente cruel, sofrendo em diversos níveis, inclusive a apropriação do sistema de causas libertárias para transformar em produto.

Mas ainda assim acho tão importante compartilhar que estou maravilhada como estou me vendo uma mulher bonita me livrando de uma série de procedimentos, coisa que nunca percebi antes.

Foi após a separação do meu primeiro marido que a transformação começou. Comecei a me ver uma mulher desejável e desejante, para mim mesma. Antes eu usava muito as roupas como escudo de um estilo para performar força, feminilidade, impacto. Eu me escondia sob as formas porque não gostava da minha própria forma. Tava sempre sorrindo nas fotos não só porque sou simpática, hahaha, mas me achava feia sem sorrir.

Adorava meu cabelo curto, mas confesso que durante muito tempo sentia algo estranho ali. Não sei, um lado do corte eu nunca gostava e tal. Uma vez estava no terreiro e recebi a mensagem que Oxum (orixá da beleza!) estava chateada porque eu estava cortando muito o cabelo, e eu falei que nãoooo, eu ficava bonita sim. A audácia! hahaha! E Oxum estava certa, CLARO!

Fora todo o esforço pra pintar o cabelo odiando passar essa química, o tempo e dinheiro perdidos no processo. Meu cabelo caía demais, vivia com uma textura pesada, poroso, sem brilho. Cheguei ao cúmulo de comprar spray gloss de brilho para o cabelo porque não me conformava. Aí cortava bem curto também porque via minhas fotos jovem, de cabelão, e me achava feia demais.

Eu era uma garota triste. Me sentia só, eu por mim mesma.

Fazer tanta força boa parte da vida, para correr atrás do meu, foi cansativo. Eu me sentia velha exausta aos 30 anos, gastei com procedimentos para melhorar o colágeno na pele, para disfarçar olheiras e não adiantava. Batia ponto na manicure toda semana porque achava meu formato de unhas feio (!!). Ia a podóloga todo mês porque os pés viviam podres, mas não atinava que poderia ser o tanto de sapato que eu usava que detonava eles, aumentava calos, espremia as unhas. Vez ou outra comparecia na depiladora, mas suando frio, tremendo, porque odiava sentir aquela dor. Depilação a laser também senti dor, abandonei logo. Não me via sem maquiagem porque precisava disarçar a pele, o cansaço, as rugas e olheiras. Ah, e compensar também um olho maior que o outro (!!!!).

Abandonei tudo isso com a pandemia. E não me vejo mais voltando a fazer nada disso.

Sei dos meus privilégios de mulher branca que trabalha em casa, mas também sei que sou mulher que sofreu com opressão do sistema por todos esses anos, sem questionar. Era assim, então vamos lá. Esbravejava, ficava mal, mas fazia porque achava que não teria solução. Era isso, ou me achar mais feia ainda. Imperfeita. Toda errada.

A reviravolta

Meus pés estão lisinhos, não tenho mais chulé, nem dores, estão até mais simpáticos, ahhaha. Não coço mais a virilha e as axilas. O cabelo está sedoso, lindo, brilhoso, um caimento espetacular mesmo sem ver uma tesoura há mais de um ano e meio. Mesmo com barriga pós-gestação, estou apaixonada pelo meu corpo, por mim. Não uso mais maquiagem, às vezes um BB Cream e um batom, ainda mais em dias de noites mal dormidas, mas não é aquela coisa obrigatória. Tenho dormido cedo com a minha neném, o que impactou positivamente na qualidade do meu sono, e ainda amamentando de madrugada, vejam vocês.

Tirei do armário todas as roupas, sapatos e acessórios que não dialogavam mais com essa minha versão, agora vou usar todas as roupas incríveis sem precisar de um evento para isso. Estou simplificando o estilo para o conforto, o bem estar, porque não preciso performar mais. Sinto um alívio enorme de me ver cada vez mais com menos, e sem a sanha de querer comprar, comprar. Estou feliz ao me ver no espelho, de cara lavada inclusive. Amo não precisar cutilar nem pintar as unhas, deixo bem cortadas e ficam tão bonitinhas.

Estou me sentindo bonita porque finalmente abandonei o que não fazia sentido, principalmente pq abandonei o medo de não estar perfeita aos olhos dos outros. Até porque eu não sou. E sou linda assim.