As roupas que guardei para você

Essa semana comentei no instagram sobre peças que desapegamos e nos arrependemos. Vou confessar, eu já me arrependi sim, de ter vendido/doado algumas coisas. Sabe calor do momento? Aí olho as peças e penso, puxa, poderia ter dado outra chance…

Aí respondo em seguida (a mente da pessoa é assim haha): mas peraí, que chance? Ela teve todas as chances e eu não a escolhia! Ou, aliás, nem chance surgiu, como foi o caso de um vestido longo lindo que comprei pra ir a um casamento que nunca existiu. Ou a blusa que realmente era linda, mas nunca foi a minha opção ao escolher meus looks, por ser mais transparente e preguiça de usar algo por baixo, por ser muito romântica e por aí vai. Ora, se nunca foi uma escolha fácil, só a beleza dela não garante que vá ser usada, né.

Me desfiz da blusa da foto abaixo. Quando fiquei meio arrependida, a moça que ficou com ela mandou uma mensagem que ela ia ajudar muito em refazer seu estilo, que era uma peça importante por ter sido minha também. Fiquei feliz e esse lamento se esvaziou. Eu não usava, tinha dúvidas e alguém estava feliz e cheia de certezas com ela. Que bom, sabe?

Aí tem aquelas que estavam guardadas e eu nem lembrava. Algumas eu desenterrei e, olha, consegui usar sim. Outras eu experimentei e não serviam mais. Podem voltar a servir algum dia? Até podem, mas não quero contar com o amanhã. Quero o hoje.

Claro que isso não se aplica a todas: algumas podem ser transformadas com reformas, outras é só um ajuste aqui e ali, tem as que ficam porque pode ser alternativas boas em uma variação de manequim. Mas gente, a questão é não arrumar desculpas para tudo e depois não usar nem depois disso.

As artimanhas do apego que eu chamo: o lamento porque a moda voltou e você teve essa peça por tanto tempo, aí se desfez do nada. Ou vai que precise, ou vai que a sua filha queira quando ela tiver 15 anos, isso o que, daqui a 14 anos?

Décadas mantendo peças que nem sei se ela vai querer usar. Se vai ser o estilo dela, se vai ser do tamanho dela, se sobreviverão a algum descuido ou mofo. Ocupando espaço, atravancando.

Mas se for de qualidade, vale a pena. Ah, sim, concordo. Alguma joia também, ou algo precioso para você, de família. Mas a questão colocada aqui é quando é só mais uma desculpa para não se desfazer. Porque arrependimento deixa a gente se remoendo por dentro, é ruim se sentir assim. E porque roupa boa é caro mesmo, eu sei bem, minha realidade por muitos anos sempre foi de ter esse receio porque era tudo garimpado, não tinha acesso e poder aquisitivo a muita coisa, então eu sofro às vezes lembrando disso.

Não é fácil mesmo desapegar. É um processo.

Cada pessoa vai ter seu tempo, porque roupas estão muito atreladas a memórias, a situações de traumas e de status, ou até de necessidade de afirmação por fatores sociais. Até eu vir morar em um apto com quartos q mal cabem um armário, eu não fazia ideia da quantidade de roupa sem uso que acumulava, por achar que deveria ter um acervo pro meu trabalho.

Foi com essa pandemia horrorosa e a maternidade que eu percebi que ainda mantinha muita coisa que achava que precisava, mas não eram do meu estilo, não gostava o suficiente. Foi por não conseguir mais dar conta de realizar manutenção em tantas peças (inclusive as guardadas, tá?), de entender que meu tempo agora era restrito e eu deveria ser mais prática, que desapeguei de uma leva sem dó.

E ainda assim tenho muita coisa. Está sendo um processo, sem cobranças, nos momentos que eu avalio melhor cada peça e vejo que não funcionaram até hoje, mesmo sendo bonitas, de qualidade, etc.

Sobre guardar pra Nina, não vejo sentido fazer isso com coisas que não fazem nem sentido mais pra mim. Mesmo sendo peças boas, a criança cria memória afetiva ao ver a mãe ou pai ou familiar usando. Ver a peça sendo vestida, adornando quem é importante pra ela, presenciando momentos com ela. Ou algo gera encantamento e sua filha/filho pode pedir para guardar: foi assim com esse vestido da minha mãe, que está comigo há 30 anos e eu USO sempre!

Claro que tenho as peças que guardo de recordação, algumas da minha vó. Mas eu uso. Usei na gravidez e uso aqui no dia a dia. Eu gosto de vestir o que foi dela, mas não acredito que esse desejo seja o mesmo da minha filha. E tudo bem, sabe? Não gostaria de sofrer pressão ou chantagem para usar algo só porque alguém projetou expectativas pra cima de mim. É uma questão da pessoa, e dizer não, não é desfeita. É legítimo.

Voltando a me vestir sendo só a Ana

Escolher roupa sem pensar que sou mãe é algo raro pra mim. Nem lembro a última vez. Sempre que precisei sair com Nina, escolho a opção mais prática e nem vejo mais tanta graça porque o ponto alto dos looks agora é a funcionalidade. Precisa ser uma roupa que não amasse tanto (mas a maioria amassa e ignoro), que deixe os movimentos livres e, principalmente, me permita amamentar.

Juntando o cansaço e a névoa do puerpério, muitas vezes se torna simplesmente o ato de cobrir o corpo. É estranho ter tanta roupa e ao mesmo tempo não ter. Eu tenho ensaiado me olhar mais e enaltecer alguns momentos, porque encarar o quarto de vestir estava extenuante.

Esse vestido veio de uma publi que fiz e eu não pensei na hora sobre a tal funcionalidade que a maternidade exige – mas foi importante DEMAIS escolher algo pra mim, como eu fazia antes.

Vou poder usá-lo sempre? Não. Mas hoje acho que consigo vislumbrar algumas brechas que não exigem mais que eu fique grudada nela sempre, tipo outro dia saí por 5h e Nina nem quis o peito quando cheguei (!!!!!!!). Só quem viveu sabe o que isso significa hahaha

Tenho reaprendido muita coisa já que tudo mudou sob essa lente ampliada do ser mãe, por isso retomar esses pequenos deleites – uma simples escolha de vestido pra mim, apenas – tem sido muito mais saborosas que antes, preciso dizer. Que colorido lindo que chega quando a névoa ensaia se dissipar.

A banalização dos mil reais chegou.

Há quase dez anos eu escrevi um dos posts mais emblemáticos do blog, sobre a banalização dos cem reais. Eu mudaria algumas coisas desse texto original, mas resolvi escrever a atualização dele para a dura realidade dos tempos que vivemos: a era da banalização dos mil reais, chegou. E eu, que ainda estava com o pensamento nos cem reais, fico chocada como a coisa só piorou com o passar dos anos e nem meu pensamento conseguiu alcançar tamanho absurdo.

É uma realidade triste demais.

Eu estava olhando os perfis de algumas pessoas que sigo nas redes, e tenho visto em comum uma série de looks mais simplificados, com rasteirinha, blusinha e uma calça molinha. Pensei: “Puxa! Essas marcas devem ser slow fashion, que bacana, vou olhar”. E nessa visita animada aos sites e e-commerce, eu caí pra trás: um top (TOP, gente, TOP tipo bustiê, simples, sem nada) por MIL REAIS.

Tudo no site custava mais de mil. Não tinha nada super elaborado, algo que justificasse o valor cobrado. Ok, entendo demais sobre criações sob demanda, valorização da cadeia de produção, tecidos de qualidade, modelagem, mas também entendo que existe toda uma historinha que é contada para justificar a cobrança de certos valores, inacessíveis para quem desejamos que seja inacessível.

Como disse uma seguidora, galera fazendo cosplay de pobre, pagando de desapegado, minimalista, garimpeiro de brechó, eco vegano etc, mas continua financiando disparidades sociais quando se torna banal pagar o valor de um salário mínimo em um pedacinho de pano. A moda segue infelizmente elitista, transformando o que era pra ser simples em pedaços superfaturados, justificados pelo selo da sustentabilidade.

Sustentável não é sinônimo de caro. Não é MESMO. Ser minimalista também não. O simples virou ferramenta de marketing.

O nosso poder de compra foi usurpado e reduzido, e voltando a surgir questões ainda mais sérias, com 19 milhões de famílias sofrendo de insegurança alimentar, sem saber se terão janta ou almoço, com a cesta básica muito mais cara e itens como carne saindo do cardápio do brasileiro.

Mas onde entra roupa nessa história?

Gente, todo mundo precisa se vestir. E é igualmente desumano não considerar que famílias não tenham poder de escolha, porque o vestir deve ser levado em conta para uma recolocação profissional, para uma entrevista de emprego, para atender algum desejo legítimo (afinal, as pessoas têm direito de desejar itens de consumo), seja por questões práticas, como alteração de tamanho de manequim.

A pandemia agravou de forma extremamente desigual o cenário, principalmente para mulheres, já que 50% tiveram que abrir mão dos seus trabalhos para cuidar de alguém. Por mais que saibamos sobre os malefícios do consumismo e que ninguém precisa de tanto no armário, não é um discurso simples assim, por compreendemos que vivemos em um sistema que julga, cobra e exige de mulheres – e isso inclui a imagem pessoal.

Eu, como mulher branca e magra, consigo fazer escolhas que eu sei que não passam pelo poder de decisão de mulheres negras, de mulheres gordas – afinal, sempre pude escolher uma maquiagem sem que meu rosto acinzentasse, sempre pude recusar comprar roupas na loja X porque eu sei que teria outras opções para o meu tamanho. Eu, que sempre tive escolha, me vejo em um momento mais difícil da vida sem meus cursos, com uma bebê pequena, com meu faturamento chegando a zero em alguns meses desse ano. Tenho vontade de fazer ajustes no meu vestir, mudanças da vida e tal, mas desanimei completamente. Como gastar uma grana alta sem saber os rumos daqui pra frente? Eu tenho roupas de qualidade e que amo e ainda funcionam, mas, novamente, nem todo mundo tem. E como faz?

Antes um vestido de festa eu garimpava por 300 reais. Inimaginável saber que esse é o preço que se paga hoje por uma camisetinha. Vestidos de festa normalmente são mais elaborados, com detalhes, costuras, pregas, botões, mas uma camiseta? Uma blusa básica? Sério isso? Uma leitora também comentou comigo: “Sempre me pergunto quanto custa o manufaturado, com bom tecido e produção justa e ecológica. Até onde é isso que eleva o valor do produto?”

Mesmo que você use duas mil vezes a blusa pra justificar, é uma questão de princípios escolher não pagar isso. Não que estejamos proibidas de gastar nosso dinheiro onde bem entendermos, mas consciência de classe vai bem, obrigada. Ninguém é melhor do que ninguém porque veste uma blusa sustentável, mas por compreender o momento que vivemos e saber se suas escolhas reverberam para alimentar essa disparidade social. É entender de onde você veio e valorizar essas escolhas, o que se tem, fazer durar, sem a alta rotatividade do comprou, nunca usou, está com etiqueta e vendeu.

E, veja, minha crítica não é sobre indivíduos específicos ou atacando marcas autorais. Eu sei dos impostos e do trampo que é. Mas pensemos sobre os rumos que algumas coisas continuam tomando e o quanto, cada vez mais, nossas escolhas precisam ser políticas. Em dez anos, saltamos da discussão dos cem reais para os mil reais – e esse assunto ganhou uma escala de progressão absurda demais, não acham?

O vestir será colorido no pós-pandemia?

Essa foi a pergunta que uma amiga fez e eu respondi de prontidão que sim. Depois fiquei pensativa, porque eu, por exemplo, acho que ainda estarei anestesiada desse tempo que foi pesado pra mim, mas por outro lado, também não aguento mais ficar só na roupa largada e pijama hahaha

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Acho que desacostumei também com os excessos, desacostumei com o ato de parar e pensar numa produção, escolher um look, no tempo que isso demanda. Mas também sinto falta do vestir para eventos específicos, para encontrar pessoas, sinto falta da alegria mais genuína e sem protocolos. Aos poucos tenho voltado a me arrumar em casa, mesmo quando bate a preguiça.

Então acredito que estaremos mais coloridos nessa catarse coletiva após pesadelo. Comemoraremos mais o hoje, estarmos vivos e sobrevivido.

Tirar o mofo das roupas, usar finalmente os meus sapatos que amo, ter de volta o prazer de se vestir para encontrar quem a gente gosta, de vestir-se de si mesmo só pra celebrar mais um dia. Se antes eu tinha preguiça de sair e fazer algumas coisas, eu hoje valorizaria muito mais esses momentos, inclusive não economizando nas roupas! Usando mais minhas peças festivas, tacando batom vermelho até pra ir pra esquina, elaborando mais as produções para não deixar as roupas guardadas tanto tempo.

inclusive estou gostando mais dos meus looks agora. Alguém também acha que seremos mais coloridos ou será tudo igual, nada mudou e estamos delirando? Hahaha

Não gosto mais de moda

Em 2018 eu gravei um episódio do meu podcast (que vai voltar, uhuuuu) em que eu compartilhei como parei de comprar por comprar. Hoje, eu definitivamente me considero uma pessoa livre desse hábito.

Quando engravidei, em meados de 2019, tive a consciência que não adiantaria sair comprando um monte de roupas. Eu já tinha algumas peças que acomodariam super bem a barriga, comprei um vestido estampado e um outro para ir ao casamento da minha assistente, já que estaria com barriga de 9 meses e dificilmente alguma peça festiva caberia (e eu nem usei, porque foi quando a pandemia estourou aqui e não teve casório). Ganhei algumas coisas, uma amiga desapegou de um vestido dela que me serviu até o fim, improvisei com o que tinha, inclusive um vestido que foi da minha avó e estava guardado.

Já com a minha filha, em uma pandemia, fiquei isolada e percebi que não tinha vontade nem de compras online. Acho que foi até algo esperado por conta do contexto, né?

Comprei poucas coisas nesse um ano e meio:

– um kimono e uma calça

– duas peças de segunda mão, um macacão e um oxford, desejos de onze anos atrás que garimpei no enjoei!

– dois peignoirs coloridos

Eu ganhei algumas roupas, sapatos e acessórios por conta do meu trabalho, o que também me ajudou em alguns momentos – mas eu também já ganhava antes, ou seja, ganhava e continuava comprando ainda. Considerei o saldo muito positivo se levar em conta como eram meus hábitos de consumo de alguns anos atrás, porque essa seria a quantidade de roupas em um mês, aliás, seria até mais.

Mudança de vida

A vida mudou muito do ano passado pra cá. Eu mudei de casa duas vezes, o que foi um gasto considerável; tive um bebê, que também teve alguns extras montando o quartinho, comprando itens, plano de saúde, pediatra, etc; deixei alguns trabalhos de lado por causa da pandemia, o que diminuiu muito meus ganhos; não ter perspectiva de sair, ir a eventos, encontrar amigos.

Mas acho que o principal foi que eu não sou definitivamente a mesma pessoa depois da Nina. É muita verdade quando dizem que a gente morre no parto para nascer uma nova você…demorei para digerir esse processo, mudei de corpo e de cabelo, meu semblante suavizou, meus valores se aperfeiçoaram, por isso hoje eu não me vejo mais comprando tanta roupa e sapato como antes.

Era algo tipo ir para uma cidade dar uma palestra a trabalho e gastar quase todo o cachê conhecendo as lojas de marcas locais. Tudo bem que tinha a ver com meu trabalho, mas não precisava gastar tanto. Numa das últimas vezes, em Curitiba, comprei a mais com medo de perder a oportunidade e já vendi três peças que foram caras, das seis que comprei. Eu me enganava sem sentir, não que eu fosse falsa no meu discurso, eu só não enxergava que estava me sabotando!

Eu acreditava no que se reverberava em consultoria de estilo “a mensagem que a gente quer passar”. Então eu ficava muito preocupada com isso, em me afirmar na imagem para compensar a insegurança da psique. Foram muitos baques emocionais que me fizeram me apaixonar pela possibilidade da moda transparecer o que eu não conseguia externar: uma mulher forte, corajosa, com ideais e sensível. Mas essa insegurança também fazia com que nenhum look estivesse bom o suficiente, me colocava em situações de comparação, sempre tinha alguém mais criativo, interessante, com uma roupa mais legal.

Era uma busca pela mensagem externa incessante, que aumentou quando pude gastar mais com roupas. Na verdade eu já fazia isso com bazares e lojas off, que me permitiam ter roupas que eu jamais teria condições de comprar se não fossem de segunda mão ou pontas de estoque. Mas eram roupas que nem sempre estavam em alta, eu comprava o que tinha e o que podia. Quando pude comprar as de preço cheio, que eram justamente as que estavam no topo das tendências, fui me sentindo mais estilosa. Mas ainda assim, as novidades surgiam e surgiam e não dava para acompanhar tudo.

Ficar em paz comigo, me afirmar como alguém com valor sem precisar de tanto esforço e gastos, foi essencial para fazer as pazes com meu estilo e limpá-lo do que era excedente. Isso trouxe uma clareza do que foi comprado apenas por impulso, do receio de estar perdendo algo incrível, do que tenho há anos e permanece soberano, da vontade de passar a tal mensagem pensando em eventos – eventos esses que eu nem fui, aliás.

Compreender que eu performava uma femilidade padronizada, que eu não precisava me comparar com roupa da ciclana ou beltrana, que estar na minha pele finalmente me traz um conforto na alma, é surreal de bom. Lamento pelo tempo e dinheiros gastos nessa empreitada? Hum…talvez, mas também não. Foi parte desse processo, a Ana do passado precisava disso.

Zero interesse em moda

Essa pegou vocês, né? Pois é, eu já não estava mais a par de tudo, agora então meu interesse é bem perto do zero, hahah, olha o drama! Mas é verdade: não acompanho instagrams de marcas (acho que já escrevi sobre isso), não passeio mais em shopping (oi, pandemia), mas a real é que mesmo quando passeava, ficava de bode das vitrines, não achava graça em mais nada. Ainda gosto de um garimpo de segunda mão porque é a oportunidade de ter peças-desejo do passado, mas aí que está, é diferente de comprar o que está em voga agora. Eu nem sei o que é tendência, aliás.

“Mas Ana, como você se atualiza?” Sabe, gente, não preciso estar a par de todas as novidades para indicar. Eu conheço as marcas que estão alinhadas com o que considero essencial, salvo as referências e é isso. Fico com vontade algumas vezes, mas aí vejo os valores e desanimo, rs.

Tenho me interessado mais em narrativas femininas, contar histórias, e daí veio a nova definição do meu trabalho: quem somos dentro das roupas. E é isso que importa e que liberta, que somos mais, muito mais. Encontrarmos o verdadeiro valor aqui dentro da gente. <3

O mito da roupa de ficar em casa

Eu trabalho em home office há uns bons anos, quase há uma década. Adoro, não troco por nada, mas eu esbarrava numa questão: não gostava de me arrumar em casa.

Durante meus 40 anos eu ignorei isso, e usava roupa surrada mesmo, qualquer short e camiseta. Pra dormir, a mesma coisa, não via sentido em gastar com pijama! Achava os modelos disponíveis péssimos (meu gosto, haha), com motivos infantis ou sexies demais. Achava tudo caro para o material oferecido e dormia de camiseta ou pelada mesmo, haha.

Mas veio esse vírus catinguento da porra e, com o trabalho de casa para muita gente, o capitalismo tratou logo de inventar a necessidade de se investir em homewear, com roupas confortáveis em modelagens elegantes, pantufas, chinelos nuvem, incluindo aí roupão e pijamas. Esse último então, todo mundo começou a fazer, hahaha!

Claro que existe a separação de marcas que sempre priorizaram o conforto e o slow fashion, marcas micro, que precisam também vender para sobreviver, né. Não estamos falando de oportunismo, mas de perceber também oportunidade.

E, pra mim, a oportunidade veio. Com a maternidade também, eu, que sempre tive aversão a roupa de ficar em casa e dormir, me vi comprando algumas e usando outras que já eram minhas, mas viviam encostadas – vou explicar:

Esse conjunto de kimono e calça de viscose eu comprei no início da pandemia, na Calma São Paulo. Tinha acabado de ter neném e minhas medidas estavam maiores, então minhas calças não serviam. Eu adorei o conjunto porque tem uma estampa criativa, digamos que inspirada na Marimekko. Conseguia amamentar e entrar em alguma reunião virtual sem problema!

Fora que o material, apesar de mais amassável, o que ignoro porque estou em casa, é o que permite que eu me abaixe e pegue um bebê. A maioria das minhas calças de mundo pré-pandemia são de tecidos estruturados, amplas, tecidos barulhentos, não permitem tanta movimentação e algumas tem a bainha para salto. Fora a minha mudança de medidas no pós-parto.

Ou seja: muitas roupas que tenho não estão aptas a estarem comigo em casa. Porque eu não parava em casa. Porque eu detestava ficar em casa, me sentia derrotada. Isso porque meus pais me proibiam de sair desde sempre, e eu fui criança e jovem de apartamento, de ficar enfurnada em casa vendo o dia passar. Criei pavor de estar presa em casa, e foi na terapia que eu ressignifiquei isso.

Roupa de ficar em casa x roupa de sair

Esse conjunto de top, calça e robe são de uma marca nordestina que prioriza o slow fashion, feita por mulheres, e uso de algodão orgânico paraibano. Uma delícia, tecido sem químicos. Finalmente, com o investimento em variações de pijamas e etc, encontrei uma variedade de roupas de dormir, que atendessem às minhas necessidades. Ufa!

Esse conjunto eu uso pra dormir, pra ficar em casa e não pensava em usar na rua até alguém comentar no instagram que não fazia distinção das suas roupas de ficar em casa e as de sair; como sempre priorizou o conforto, elas são usáveis nas duas situações.

Eu confesso que é claro que isso faz sentido, mas não muito pra mim, ainda. Eu ainda tenho a necessidade de pensar em roupas de sair como peças de tecidos planos, e essa história que percebi do horror de ficar em casa têm a ver com querer ficar vistosa, de sair ser um evento e eu estar vestida para tal. Mais uma vez, tenho ressignifcado isso, pq confesso que a pandemia tirou minha alegria de me arrumar pra sair.

Sem eventos e encontros, com um frio que não fazia aqui há séculos, comecei a usar roupas que estavam paradas. E to amando, viu? Não estou economizando nada, uso mesmo. Selecionei as mais confortáveis que eu já tinha, como essa calça que comprei no início da gravidez, e essa blusa de moletom. E ainda to aproveitando minhas papetes, hahaha, sapato confortável, pau pra toda a obra, que é estável pra cuidar de neném, haha!

Bom que essas peças funcionam para estar apresentável e gateeenha para algum eventual trabalho online e se eu precisar sair, também!

Ou seja, precisa comprar um guarda roupa inteiro pra ficar em casa estilosinha? NÃO. Isso é criação de demanda mercadológica. Dá pra olhar pro que se tem e exprimentar! É desfazer essa crença de roupa de missa, haha, que só se usa pra quando tiver um evento extraordinário, já que com essa doença pairando, estamos vendo que estar vivo tem sido um feito, um motivo mais que especial e urgente de se vestir pra si mesmo como um gesto de carinho, de celebração.

E com vocês, como é essa questão do vestir em casa X sair?

Qual é a imagem de uma mulher poderosa?

Hoje, em uma postagem minha no instagram, uma leitora antiga falou da identificação com meus looks atuais ser maior, mais estilo “carioca”: despojados, coloridos, com sandálias baixas e confortáveis, sem terceiras peças e saltos altos inconcebíveis para as calçadas daqui. E acrescentou que temos que desfazer no nosso imaginário que mulher poderosa é aquela que se veste de executiva ou com roupas de inspiração no guarda roupa masculino.

Durante muitos anos eu aderi a alguns aspectos dessa indumentária que me relacionava a poder e elegância. Depois, numa avaliação do meu estilo, percebi que eu amo peças com cores lisas, sem tantas estampas (estampas mais pra geométricas), com cortes e modelagens arquitetônicas, camadas e volumes. Eu brincava que gostava de me vestir à paulistana, haha, aquela coisa de roupa preta, tanto que comecei a comprar roupa mais em SP por me identificar mais com as marcas de lá do que as daqui, que copiavam demais as estampas florais coloridonas da FARM e vestidos esvoaçantes. Aff, era cansativo tanta cópia desse estilo garota carioca zona sul.

Ironicamente a blusa desse look, de 2014, é da FARM, hahahaha! Mas olha aí o que eu fazia, já mandava um blazer, uma calça escura, um sapato fechado. Aí você me pergunta, como carioca dava conta de um look quente assim? Pois é, não dava. Eu passava era raiva quando o calor chegava, odiava me vestir no verão, e culpava a estação, não o meu guarda roupa cheio de roupas de um estilo de vida que não era o meu.

Fora essa associação classista e preconceituosa que a moda colorida e despojada não pode ser elegante. Em cidades mais quentes, como no norte e nordeste, em que é impossível se vestir com tantas camadas, não são elegantes então? Não são poderosas?

Com a maternidade e a pandemia, o choque de realidade de entender, de uma vez por todas, que meu guarda roupa não estava mesmo alinhado à minha vida. Hoje, querendo conforto e praticidade pra ficar com minha neném, com os pés sem machucados e sem chulé, hahaha, eu continuo amando peças impactantes, mas elas podem ser mais adequadas ao clima e ao meu bem estar.

Mas, voltando à pergunta desse post, qual é a imagem de mulher poderosa que vem à sua cabeça?

É a executiva com terninho, andando de salto agulha fechando mil contratos? É uma mulher amamentando? É a sua avó? É a erveira que faz um trabalho de saúde pública para mulheres desassistidas? É a Beyoncé? É você mesma?

E sendo a imagem da mulher de terninho, por que terninho? Por que não fechando contratos de vestido colorido? Ou de tênis e camiseta? Por que signos masculinos (formalidade de terno, roupas escuras e sóbrias, calças alfaiataria) é que normalmente estão associados ao poder?

Um exemplo de mulher poderosa que conheci em Belém, no mercado Ver-o-peso: Tia Coló, a erveira e seus feitiços. Que energia que ela passa, nossa. Olha esse look, que maravilhosa <3 O quanto a imposição de um estilo padronizado, enlatado, superestimado por ser sudestino ou da branquitude, está arraigado na nossa mente. Uma descolonização das nossas referências é urgente para abrangermos um repertório maior de mulheres que são símbolos e referências na nossa cultura.

Sem ele, eu não seria grisalha

Foi preciso a validação masculina para que eu tomasse coragem de parar de pintar o cabelo, aos 39 anos. Foi quando meu companheiro falou, vendo minha preguiça de ir ao salão e com a raiz cheia de pontos brancos, que eu ficaria linda grisalha. Quando ele disse isso, foi o momento em que a ficha caiu para eu entender que existia a alternativa de não pintar mais.

Eu acho isso bem triste, pra ser sincera, precisar da aprovação de um homem para tomar a iniciativa. E sintomático, se observarmos um tiquinho de como funcionamos quanto sociedade. A mulher que teme não ser desejada, envelhecer sem um companheiro, que só é valorizada quando é casada. A mulher que tem que se manter em dia, unhas, cabelo, pele, dentes, poros, pés, para fazer valer o amor que ela recebe do seu amado. Se a união chegar ao fim, culpa dela que não se cuidava, falarão.

Descobri recentemente que esse era meu medo também, reflexo de uma juventude com a autoestima destruída. Por isso, mesmo com minha mãe como referência de mulher grisalha, nos anos 80 ainda, eu não conseguia tomar para mim essa possibilidade. Cresci com os colegas perguntando se era minha mãe ou avó – e olha que ela me teve com 24 anos. Eu via minhas amigas balzacas, mais recentemente, com as cabeleiras brancas e pensava na coragem que elas tinham. Ainda sugeria uma maquiagem de leve, como eu era bobona intrometida.

Fico especialmente feliz ao receber mensagens de leitoras e amigas que usaram minhas fotos para incentivar as mães, avós, sogras e amigas a se perceberem bonitas com suas mechas brancas. Ou vocês mesmas desejando ter logo fios brancos (!!!) porque se inspiram em mim. Esses relatos são especiais, porque em 2019 eu era uma das únicas por aqui – até recebi no início um spray para cobrir os brancos de uma empresa desavisada –, e claro que eu entendo que as marcas não querem perder essa fatia de mercado, que vem crescendo e se afirmando, mas também penso que são avanços significativos.

Por mais mulheres sendo as principais incentivadoras de outras mulheres. Por mais mulheres enxergando suas próprias belezas. Que essas histórias de recomeço sejam cada vez mais diferentes da minha.