Outro dia estava na fila do Starbucks e, ao chegar minha vez, fiz meu pedido e inseri o cartão pra pagar. Nisso, a atendente puxa assunto:
“– Er…posso falar uma coisa?”
Na mesma hora fiquei tensa achando que era tipo aquele comercial do Visa e ela me avisaria que tinha feijão nos meus dentes, sei lá, haha. Falo que sim e ela devolve: “Seu cabelo é lindo! Eu precisava falar isso pra você”.
Sorri com tanta fofura. Ela ficou super feliz em compartilhar comigo o que pensava, agradeci e fiquei bem saltitante o resto do dia. Muitas e muitas vezes estamos numa correria tão monstra e nos sentimos incapazes de parar por segundos e exaltar as qualidade de alguém à nossa volta. Ou gastamos nosso tempo livre reverberando apenas críticas “Ih, fulana, veio trabalhar de caipira com esse vestido xadrez?”, “Não gosto desse tipo de calça, mas ok em você”.
Sabe, o que a pessoa pode fazer com esses ataques de sinceridade? Se ela estava feliz com seu vestido xadrez e você não gosta, concentre-se e pense que ela pode se sentir chateada e acreditar que está errando tudo. Logo hoje que ela foi tão ousada, que saiu do jeans e camiseta e buscou o novo, que estava se sentindo tão bem com aquela estampa.

(não achei os créditos dessa imagem, quem me ajuda?)
Há alguns anos procuro elogiar as pessoas de coração, espontaneamente mesmo, como eu gostaria que fizessem comigo ou com que eu amo. Incrível perceber como somos sortidas e temos características tão interessantes, fico muito empolgada com isso. O que eu notei é que quando entregamos um elogio sincero, muita gente não está preparada – ou acostumada. Sorriem, falam que são meus olhos, ficam ruborizadas, abaixam a cabeça, se colocam pra baixo “imagina, hoje eu to com essa cara de morta viva”.
Eu também tenho esse hábito muitas vezes de praticamente me desculpar pelo elogio e acreditar que não mereço tanto. Ficamos preocupados pensando que vão nos achar metidos demais, ou pouco modestos, não era pra tanto, como assim aceitar de primeira as palavras. Minha vó dizia sabiamente: “Ao ser elogiada, agradeça e sorria também com os olhos”. É isso: aceitar de peito aberto quando as coisas boas chegam até nós!
Dureza da vida, desconfiança, correria, falta de tempo, mau humor, viver em uma cidade onde estranhamos esse tipo de atitude. Mas me diz se não seria um passo à frente, uma mudança do mundo ao seu redor termos atitudes opostas às do cotidiano? Quantas vezes eu estava triste por algum motivo, me sentindo arrasada e um completo estranho foi capaz de transformar meu dia, de iluminar meus pensamentos, de me fazer abandonar aquele estado de espírito e adotar um sorriso!
Já recebi muita rasteira, ofensa gratuita, dúvidas sobre meus ideais, palavras baixo astral de quem eu menos esperava. Fiz terapia, percebi que não podemos mudar o jeito e a forma das pessoas se expressarem sobre nós, mas podemos devolver com flores. Com menos rancor. Podemos ser maiores que esses sentimentos e pensarmos com compaixão sobre quem tem esse estranho hábito de se deleitar com o fracasso alheio. Eu posso mudar em mim a forma como me relaciono com essas trocas externas e, internamente, trabalhar meu ego e minha sensatez para perceber que sou mais do que aquilo que dizem sobre. Que eu posso ser feliz, por mais que o mundo tente provar ao contrário. E assim fico tranquila e tento extravasar esse pensamento para que outras pessoas, conhecidas ou não, se sintam aliviadas também. 🙂

“Seja um encorajador. O mundo já está cheio de críticos”.
Elogiar assim, de cara, sem titubear, é tenso, haha. Dá um medinho de ser mal interpretada, da pessoa achar que estou cantando ela, ou que sou louca. Mas eu já retribui um oi com “que moça linda que você é!” e tive a grata surpresa de ver alguém se iluminar, ali, na minha frente. E na mesma hora sobe um calorzinho bom, uma sensação que fiz um bem pra alguém, apenas dizendo coisas bonitas. Simples e tão rico.
Podemos começar a praticar hoje tanto distribuir quanto aceitar os elogios. Esse movimento pró positivismo recebeu até nome, o Gniyllub (bullying ao contrário) empregado por Letícia Novaes, que consiste basicamente em elogiar pessoas que você não conhece. Aliás, ela escreveu um texto maravilhoso sobre o dia que ela tirou exclusivamente para isso, vale a leitura da A arte de distribuir elogios.
Num mundo onde a moda atual é distribuir nos perfis “Sua magraaaaaa!!!”, “Rhyca, faz inveja nas inimigas”, podemos fazer a diferença sendo muito mais do que isso, não? 🙂
Não me aguentei e transcrevi aqui o relato da minha amiga Táia Rocha, jornalista, que dividiu sua experiência de elogiar quem ela não conhecia e teve seu dia cheio de luz e graça e ainda me inspirou a escrever sobre o assunto 🙂
“Estava no ônibus, quando uma senhora de uns 70 anos sentou ao meu lado. A princípio nem reparei nela. Até que o casaquinho dela caiu no meu pé. Abaixei para pegar e ela sorriu tão bonito que fiquei impressionada. Primeiro pensei “essa mulher foi lindíssima nova”. Depois pensei “pera, essa mulher É lindíssima! ela é uma idosa linda, que sorriso! (estava de batom vermelho, muito chique), que cabelo branco bem cortado e sexy, que postura!!”.
Na hora pensei “vou falar que ela é linda. quantas pessoas por dia, nesse mundo machista imbecil que só valoriza juventude, bundas e peitos, elogiam a beleza (real) dessa mulher?”.
Fiquei impressionada, em seguida, com como a gente fica tensa antes de dar um elogio de graça, do nada, a alguém. Como nos acostumamos à dureza da cidade grande, às críticas, ao pé-nos-peito, mas como é difícil e intimidador fazer um elogio 100% gratuito.
Esperei chegar perto do meu ponto, virei para ela e disse “posso fazer um elogio? A senhora é muito bonita. Quando seu casaco caiu e te dei, você deu um sorriso lindo”. Ela sorriu, se iluminou e disse “Obrigada querida!!” e em seguida, orgulhosa, mas com muita elegância, completou “Oitenta e quatro anos. Sou de 1930”. Meu queixo foi no chão!!! Falei “QUE ISSO! Não parece de JEITO NENHUM!”. Ela se manteve elegante “São seus olhos, querida. Obrigada!”.
Fui surpreender, fui muito surpreendida. Aos 84 anos, linda daquele jeito, ela deve ter sido a musa de todos os corsos de Carnaval, rainha de todas as rodinhas de bossa na praia, princesa da Princesinha do Mar.
Mas o que importa mesmo é que ela é linda AGORA. E que eu consegui dizer isso pra ela”


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