O novo sempre vem

Tenho essa camisa há uma década, tava resgatando uns looks antigos com ela e a primeira vez que a usei foi em 2011. Ganhei de uma permuta com uma marca que nem existe mais, mas curiosamente por muito tempo a usei em looks básicos, com shorts, acho que eu a considerava ampla demais, não sei.

Mesmo assim eu não a deixei de lado, usava no dia a dia, até pra ir à praia, foi até pro meu ensaio de grávida na floresta, haha. Já ficou bem manchada de suor, eu dava uma quarada, ela rescussitava. Enfim, nunca tive medo de usá-las, mas também nunca achava os looks com ela elegantes ou interessantes.

Trancada em casa, sem eventos, com tarefas acumuladas, não tem sobrado tempo pra me arumar. Mas nesse dia Nina dormiu de manhã, e mesmo com o chão cheio de tapioca que ela jogou, haha, eu deixei pra lá e priorizei me arrumar. Me maquiei, pensei num look como eu tenho visto algumas mulheres usarem, camisão longo soltinho com calça pantalona, de tecidos leves. Antes eu tava até olhando umas lojas online achando que precisaria de umas roupas novas nesse estilo, até que olhei melhor minhas roupas…pô, elas estavam todas lá! Não precisava comprar nada!

Agora a moda tá esse cabelo partido ao meio e preso atrás, com roupas mais soltinhas acompanhando, algo meio marroquino, pelo menos me remete. Reproduzi essa inspiração adequada à minha correria materna (olha no chão os restos de tapioca que Nina jogou hahaha) e me senti tão linda! 🙂

Tenho me achado mais bonita do que nunca estive, mas esse look me animou, justo na semana em que eu falava que não estava mais empolgada para me arrumar. Não pensei muito, me vesti, me maquiei e fotografei. Com tudo que eu já tinha. Há anos. Vejam só como algumas roupas que não olhávamos da mesma maneira há uns anos atrás, podem se transformar nas diferentes etapas das nossas vidas.

O que vestir para lives e reuniões online

Nunca na minha vida eu pensei que escreveria um post sobre o vestir numa pandemia. Nunquinha pensei que não sentiria a menor vontade de me arrumar pq simplesmente não encontro motivação. Sei que muita gente manteve a rotina de trabalho presencial, mas a maioria agora faz reuniões por chamada de vídeos e participa de entrevistas em lives, e se arrumar para esses momentos é uma nova questão!

Para quem está se aventurando nesse desafio de se vestir para manter uma rotina, principalmente quem faz muitas reuniões de vídeo, a parte de cima do look virou o destaque, por ser o que aparece nas chamadas. Como se vestir para lives? Como variar a parte de cima nas reuniões do zoom?

Vou dar algumas ideias:

  1. Blusas com bom corte, em cores suaves ou neutras para quem é mais básica. Adoro golinha levantada ou gola padre e até role, dá uma estrutura bonita no pescoço. Se vc achar seu pescoço curto, pense em gola levantada mas o primeiro botão da camisa aberto!
  2. Gosto de blusas com recortes diferentes, mangas diferentes ou terceiras peças que deem um detalhe colorido/estampado. Sobreposições de blusas/vestidos também são lindas!
  3. Variar com brincos mais coloridos e leves ou colares mais próximos do pescoço, coloridos ou mais clássicos, lembrando de não serem aqueles que ficam batendo constantemente no microfone do fone de ouvido
  4. Peças com estampas coloridas, mas sem ser em cores demasiadamente neon, para não destacar tanto em vídeo
  5. Lenços na cabeça também criam uma variedade linda
  6. Armações de óculos coloridas – tenho usado muito esse recurso, primeiro pq não enxergo sem ele os comentários das lives, haha, segundo porque ele dá um destaque lindo e eu não preciso nem de maquiagem ou outro adorno!
  7. Mensagens, frases na camiseta, que ajudem de cara a reforçar seus ideiais. Outro dia gravei um IGTV sobre roupas que ferram a nossa saúde e usei uma camiseta escrita TETA LIVRE (por conta da amamentação)
  8. Rola mistura de estampas e de cores? Opa, claro! A parte de cima com um lenço, ou na sobreposição de blusa com terceira peça, com os brincos ou colares mesmo.
Fiz muitas lives com esse vestido estampado e óculos colorido!

No mais, regra de maquiagem não existe. Cada uma vai como se sentir bem, né? Prioridade desse momento. As cores dependem do que você está comunicando também. Se você vai fazer uma live sobre um assunto mais complicado, pensar em cores mais neutras, por exemplo.

Teste tudo antes!

Lembre de estar vestindo algo que você testou antes: sente-se em frente ao celular ou computador e se observe, gesticule, simule uma conversa. Veja como você se sente no vídeo, se os acessórios vão atrapalhar e bater no fone, se a blusa vai ficar caindo nos ombros, se o lenço vai cair do cabelo, se o batom não vai secar e grudar os lábios, haha. É sério, é tipo viajar com um sapato que você nunca andou com ele antes, sabe? E é importante você estar confortável com vc, pq na hora do ao vivo, te distrai ficar se ajeitando.

Se for o caso, grave de verdade ou se fotografe. Mas nada de cobranças, lembre-se que faz parte do que está acontecendo no momento, viu? Eu já tirei os brincos no meio de uma live, pedi licença e segui.

Alguém quer dividir suas experiências nesse momento? 🙂

Sem a menor vontade das minhas roupas

Depois de um ano isolada nessa pandemia, sem nenhum escape ou saidinha para desanuviar, cuidando de uma neném que nasceu no início dessa loucura, sem ajuda de rede de apoio, nem preciso falar que eu ignorei completamente minhas roupas. Sei que muita gente usou o vestir nesse período para se sentir dentro de alguma normalidade, para melhorar o astral, só agora que estou tentando esse artifício, mas muitas e muitas vezes não dá.

Isso impacta no meu conteúdo? Claro. Mas preciso ser sincera, pq até o vestir passa por um ato político. Pra mim, por enquanto, não tá dando. Estou, enquanto isso, tendo boas ideias de cursos, temas de conteúdo, e até vídeos, coisa que nunca havia feito aqui!

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Acho que tem sido importante atravessar essa fase sem olhar pra roupas, para observar mais e mais o que de fato me deixa feliz ao vestir, ou que seja funcional mesmo. Essa obrigatoriedade do tem-que-se-arrumar depois que se é mãe, confundindo todas nós, sendo mais uma forma de tirar a atenção e foco de outros processos, me irrita. É importante se sentir bem nesse momento, claro, mas eu percebo a aceleração que o mundo nos coloca, o que deixa tudo mil vezes mais cansativo.

Fato é que estamos numa pandemia e eu não quis adoecer nem correr o risco de transmitir nada pra ninguém. Estou cansada? Exausta definiria melhor. Com ódio desse desgoverno e seus cúmplices? Com toda a certeza do mundo. Mas eu tô aqui, como tanta gente, tentando sobreviver e, de quebra, criar minha filha. Sem sair, sem dar meus cursos, sem ir até a esquina, pra quê desfile de looks?

Depois desse desabafo, típico da época de blogs, hahahaha, eu vou dizer algo que NUNCA imaginei: eu não to nem aí pras minhas roupas, muito menos sapatos e bolsas. Acho que tem a ver tb com outra questão, de ter me mudado pra um lugar menor e não ter mais armário. De estar tudo ainda em araras, no quarto que faz as vezes de closet, esperando que compremos os aramados e prateleiras para organizar. Mas por enquanto, é o que dá. E por conta dessa bagunça visual, dessa falta de um lugar aconchegante pra me vestir, eu esmoreci. Até porque não sei quando poderei pisar na praia do lado de casa novamente.

Vamos ver se até o meio do ano rola uma reviravolta e voltamos a ter looks por aqui.

Que situação, 2021.

Para saber seu estilo é preciso também saber quem está ao seu lado

{possíveis gatilhos de violência psicológica}

A gente bate na tecla de se perceber, de compreender o que cabe na sua vida para entender seu estilo, de se olhar com um olhar mais generoso, de provar suas roupas sem medo, de entender o processo natural das coisas, MAS, nesse contexto de estilo pessoal, é importante demais observar sobre o que nos rodeia. Quem está ao seu lado, te apoia ou te critica? A opinião sobrepoe a sua?

Mulheres são bombardeadas pela mídia diariamente, se aproveitando das inseguranças criadas a partir de padrões estabelecidos, para lucrar com venda de produtos e serviços. Durante anos fomos ensinadas a odiarmos nossos corpos, a observarmos nossas mães odiando os corpos delas, a prestarmos atenção para não engordarmos, nem sermos rebeldes demais, que isso tudo mediria o quanto de afeto teríamos na vida. Obedientes, subservientes, castradas – condicionadas a agradar para termos validação, para sermos merecedoras de amor.

Na minha casa cresci com meus pais desmerecendo até coisas mínimas, mas que me deixavam insegura. Sou uma mulher forte, que bato de frente com muita coisa, mas essas palavras deixaram marcas. Durante muito tempo me vesti aqui para agradar minha audiência – claro que a gente usa estratégias de conteúdo, mas eu tinha medo também de desagradar, de ser zoada, lá no fundinho, sabem? Queria ser aceita. Por isso muitas vezes mulheres da minha geração se deitaram sem pestanejar para os padrões, mesmo sentindo incômodo, com a sensação latente de não-pertencimento.

Falemos, mais do que tudo, de maridos/namorados que encrencam com saia curta, que proíbem a companheira de vestir o que quiser, que insinuam que ela fica melhor sem maquiagem e de esmalte nude, que não permitem que ela use salto e fique maior que ele. Muitas, infelizmente, ainda que não sofram fisicamente essa violência, não percebem o terror psicológico de não poderem fazer suas escolhas para não desagradar. Fora os que as presenteiam com roupas sensuais insinuando que elas deveriam se vestir de tal maneira para que sejam merecedoras do desejo deles.

Vivi tanto isso nos atendimentos de consultoria. Um dos mais marcantes foi o do marido, com o pé quebrado, dizer que não queria sair da cama do quarto (que eu precisava para colocar os looks da cliente) para me dar espaço para trabalhar. Fiquei atendendo com aquela criatura fazendo pouco caso de tudo e da esposa, se intrometendo nas escolhas e dando opiniões não solicitadas.

Amigas que não são amigas

Eu entendi, anos depois, nas minhas sessões de terapia, o quanto não enxergava que buscava sem perceber a repetição desses padrões também nas amizades. Era o que eu conhecia, afinal. Aceitava ser menosprezada pela amiga que estranhamente desdenhava de tudo que eu falava. Da outra que se achava superior por ter lido mais. De ter sentimentos e desejos invalidados, porque elas sabiam mais de mim do que eu mesma, e o que era melhor pra mim, vejam só.

Era muito comum uma delas dar sempre uma zoada em alguma roupa ou acessório meu “Você ganhou isso, né? Me diz que você não gastou com essa coisa horrorosa”, eu sorria amarelo e muitas vezes acreditava. Ou aquela que comentava nas fotos do meu look “Lindo, mas faltou uma bainha”. No que esse comentário crítico, disfarçado de dica amiga, me ajudaria nesse momento? Nada, hahaha, só me fazer sentir mal por não ter postado um look perfeito.

Tem quem tenha amigas que apontam o dedo quando você sai do provador da loja, que riem da sua roupa, que dizem que você não tem mais idade nem corpo para vestir certas coisas, que acreditam em competição feminina dizendo que se vestem para causar inveja. Não alimento competição feminina e não acredito que isso exista espontaneamente: é mais um fruto de um sistema que ganha com mulheres disuputando e não se unindo. Prefiro conversar hoje em dia e expor meu desagrado para que talvez ela observe isso também em seu comportamento.

Isso é sério quando observamos que muitas mulheres escolhem, sem perceber, encolherem e anularem seus desejos no vestir para não se destacarem, para que as roupas não sejam medidores do seu intelecto. Não conseguem aceitar suas cores, não conseguem avançar nas etapas de consultoria. Quando eu dava o workshop de cores, ouvi muitas repetirem que estavam ali porque precisavam se vestir como adultas para não ouvirem críticas à aparência no trabalho, que queriam ser mais sexies pro marido.

O que a consultora de estilo pode fazer nessas situações? Eu te digo: nada que não seja acolher e abraçar essa mulher. Esvaziar palavras autoestima e autoconhecimento como reforço do seu trabalho não constribuem em nada. Não somos psicólogas, mesmo que seja a sua formação, não é nosso papel ali. Mesmo que você diga um monte de frase de efeito no sentido de ajudar, jamais saberá as dores daquela pessoa.

O nosso trabalho sim pode ser uma fagulha em direção a esse processo, mas que é inteiramente individual.

Todo mundo deveria ter direito a terapia, todo mundo deveria ter consciência da importância, mesmo achando que não precisa. Saber seu estilo é um dos passos, e entendemos melhor sobre ele – que é entender sobre si mesma – quando caminhamos para nosso conhecimento pessoal, quando analisamos o que nos dói, quando vamos trabalhando a cura ou a cicatrização dessas dores, para nos olharmos em frente ao espelho nas nossas cores, roupas e acessórios refletindo, sem medo do olhar alheio, o tantão de maravilhosidade que somos.