Moschino for Riachuelo: os absurdos do retorno das colabs

Eu jurei de pés juntinhos que nunca mais falaria dessa empresa no meu blog e redes sociais, assim como também não piso mais em nenhuma loja, mas trago uma conversa importante. A minha decisão veio tanto do posicionamento do dono da empresa, Flavio Rocha, que notoriamente apoia o presidente abjeto da república, de ter declarado também ser contra a taxação de fortunas para não empobrecer ricos, agravado pelo caso da Guararapes Confecções, indústria de roupas do grupo Riachuelo, ter sido condenada a pagar pensão vitalícia a uma costureira por condições precárias de trabalho:

“O grupo Riachuelo foi condenado a pagar pensão vitalícia a uma de suas ex-funcionárias em mais uma ação que revela as precárias condições de trabalho impostas às costureiras que produzem para as grandes marcas da moda. A condenação descreve um ambiente de trabalho em que a exigência de metas de produção ocorria mediante abusos físicos e psicológicos.

Segundo seu relato, a costureira era pressionada a produzir cerca de mil peças de bainha por jornada. A meta, por hora, era colocar elástico em 500 calças ou costurar 300 bolsos. Na ação, a funcionária diz que muitas vezes evitava beber água para diminuir suas idas ao banheiro. Idas que, segundo ela, seriam controladas pelo encarregado mediante o uso de fichas.”

Matéria de 2016 da Repórter Brasil

Corta para 2021, depois de anos sem coleções especiais com marcas internacionais em fast fashion, a varejista lança uma colab – sim, 2021 e ressucitaram as colabs, as coleções especiais – com a marca italiana Moschino, que é um sinônimo de excentricidade e irreverência nas suas coleções, alguns dizem até ser sinônimo de deboche. Bom, acho que nesse caso deboche caiu como uma luva com o que presenciamos sobre o lançamento. Um escárnio com quem comprou, eu diria.

Eu não vi as peças de roupas, não prestei mesmo atenção nelas. Mas quero conversar com vocês sobre as mensagens por trás de lançamentos assim, que movimentam MUITA grana (lembro de um que a galera chegou de jatinho temático aqui no Rio pra um preview de coleção). A linguista Jana Viscardi fez uma crítica contundente sobre os influenciadores que toparam fazer campanha para divulgar essa colab com a Riachuelo, mesmo aqueles que dizem escolher bem com quem fecham parcerias. Ela fez um texto excelente sobre as responsabilidades no mercado de influência, com influenciadoras com milhões de seguidoras que toparam publi pra essa coleção.

Nos atentemos porque as eleições de 2022 estão aí: analisem criticamente para quem vocês acompanham nas redes sociais e estão reverberando campanhas de empresas como essa, apoiadoras desse governo.

Recomendo demais também o vídeo que Jana fez questionando os limites e as responsabilidades do mercado de influência. É um debate importante:

Falta de respeito com o consumidor

Pelo que eu li as peças são o puro suco do poliéster, com preços elevados, não posso nem quero avaliar nada. Mas o que considero grave foi a quantidade de comentários no perfil deles no instagram de pessoas que compraram as peças no pré lançamento e os pedidos foram cancelados sem nenhuma explicação. Foram muitos, muitos, tanto que algumas leitoras me avisaram. Vejam, essas pessoas compraram produtos que existiam na pré-venda e agora não vão receber porque as compras foram canceladas – não tem nada a ver com estoque. Talvez seja o caso de PROCON, né não?

Bom, resolvi falar porque eu sei que fiquei conhecida pelas minhas análises de provadores de coleções especiais das fast fashion, inclusive nessa dita cuja. E, ao contrário desses influenciadores que já nadam em dinheiro, parece que quem mais precisa ter seu nome atrelado à ética, quem sabe a gravidade de se associar a empresas que não respeitam seus trabalhadores, nem seus consumidores, é quem se posiciona criticamente.

Achei essencial falarmos disso aqui, porque eu sei que algumas coisas podem ser tentadoras, tipo comprar uma roupinha da marca trend italiana. Mas tivemos nossa lição em 2018, moda é política, sim. Vocês, que me acompanham há tantos anos falando dessas coleções, sabem também perceber que nem tudo vale a pena em nome de desejos de consumo. Tem tanta marca desenvolvendo trabalhos legais por aí, sabe?

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