Dia 21 foi o meu aniversário. Eu sei que tem gente que não gosta de aniversário, que prefere esquecer que está envelhecendo, mas eu amo o meu dia, adoro receber parabéns– presentes já não recebo há muito, mas não fazem falta – e toda aquela aura que só o dia do meu nascimento traz.
Eu nunca liguei para ano novo/reveillon, não é a data que eu escolhi para pensar na vida ou refletir sobre meu último ano. Meu aniversário é esse momento: eu fico reflexiva, repenso uma série de posturas e decisões (inclusive as erradas), eu assumo como a época mais importante do meu calendário, aquela em que o dia parece sempre solar para receber a minha nova idade.
Há uns anos eu escrevi um texto saudando as minhas rugas, mas hoje, aos 37, eu já não sei se o faria com tanta serenidade. Os 37 já estão sentindo o reflexo do 36 relapso, sem cuidados, com uma sobrecarga de trabalho. Uma estranheza na elasticidade da pele, as olheiras cada vez mais fundas, o papo que se forma abaixo do queixo – sim, carga dramática aí, hahaha.
Parece reclamação rotineira de mulher, mas é bem estranho perceber do nada os sinais do tempo. Aos 30 a gente só compreende o peso da transição (ou não compreende), mas à medida que a entrada nos enta se aproxima, a percepção é bem diversa. Mas, a cada vez que eu me olho no espelho, eu me percebo mais eu: mais fiel a minha essência desde menina, mais ao encontro da imagem que quero projetar, mais impaciente com quem não merece minha serenidade, e tudo isso em um corpo que mudou bastante – e ainda não sei se isso é bom ou ruim – e que segue um ritmo diferente do da retina.
A grande sacada não é apenas aceitar essa mudança, mas conduzi-la de uma maneira livre de pesos e culpas. Desenvelopar tantos nãos que carregamos. Se arrebentar um pouquinho diariamente, não para se odiar, mas para abraçar cada evolução dessa transição, e se permitir. Manter-se contrária ao lugar que colocam a maturidade: a da penumbra, da saia mais comprida, das cores mais sóbrias, a adequação, as mangas para ~disfarçar, o volume maior para ninguém notar o peso extra.
Eu escolhi ressaltar o sorriso genuíno que me acompanha nesse plano astral. Que se manifesta mais intenso quando eu decido me amar e me aceitar mais e mais e mais.
E foi o que eu decidi: depois de um desejo reprimido desde os 20 anos, amadurecer tem dessas coisas boas. Arrebentei mais uma amarra e decidi colorir o cabelo de azul. E a menina que temia os olhares repressores e a não aprovação, optou por ser cada vez mais ela mesma e a fazer mais e mais o que a faz feliz. E soltou um foda-se para a opinião alheia.

Dia 21 de fevereiro é o meu ano novo particular. Já não é um dia tão festivo, mas a celebração passou a ser interna. A minha celebração, a renovação do meu compromisso anual e diário de me aceitar, me perceber, me amar. Sou insegura demais, mas tenho conseguido me desvencilhar de alguns velhos fantasmas para chegar cada vez mais perto da Ana que eu sou, a quem eu sempre pertenci.
O texto tem um pé no drama, mas eu sei que cada vez mais vou curtir o que de novo vier – e saber que temos a capacidade de melhorar sempre, seja no físico, seja no espiritual. Temos a chance de sermos nós mesmas, diversas, insistentes, bonitas, radiantes! Eu amo meu corpo, meu cabelo e tudo que esta aqui comigo há tantos anos <3

Esse foi o meu presente de aniversário. Não a cor do cabelo, mas a prova cabal que a mudança – e, mais uma vez, a interna, não apenas a do exterior – pode e deve ser boa.

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