Não gosto mais de moda

Em 2018 eu gravei um episódio do meu podcast (que vai voltar, uhuuuu) em que eu compartilhei como parei de comprar por comprar. Hoje, eu definitivamente me considero uma pessoa livre desse hábito.

Quando engravidei, em meados de 2019, tive a consciência que não adiantaria sair comprando um monte de roupas. Eu já tinha algumas peças que acomodariam super bem a barriga, comprei um vestido estampado e um outro para ir ao casamento da minha assistente, já que estaria com barriga de 9 meses e dificilmente alguma peça festiva caberia (e eu nem usei, porque foi quando a pandemia estourou aqui e não teve casório). Ganhei algumas coisas, uma amiga desapegou de um vestido dela que me serviu até o fim, improvisei com o que tinha, inclusive um vestido que foi da minha avó e estava guardado.

Já com a minha filha, em uma pandemia, fiquei isolada e percebi que não tinha vontade nem de compras online. Acho que foi até algo esperado por conta do contexto, né?

Comprei poucas coisas nesse um ano e meio:

– um kimono e uma calça

– duas peças de segunda mão, um macacão e um oxford, desejos de onze anos atrás que garimpei no enjoei!

– dois peignoirs coloridos

Eu ganhei algumas roupas, sapatos e acessórios por conta do meu trabalho, o que também me ajudou em alguns momentos – mas eu também já ganhava antes, ou seja, ganhava e continuava comprando ainda. Considerei o saldo muito positivo se levar em conta como eram meus hábitos de consumo de alguns anos atrás, porque essa seria a quantidade de roupas em um mês, aliás, seria até mais.

Mudança de vida

A vida mudou muito do ano passado pra cá. Eu mudei de casa duas vezes, o que foi um gasto considerável; tive um bebê, que também teve alguns extras montando o quartinho, comprando itens, plano de saúde, pediatra, etc; deixei alguns trabalhos de lado por causa da pandemia, o que diminuiu muito meus ganhos; não ter perspectiva de sair, ir a eventos, encontrar amigos.

Mas acho que o principal foi que eu não sou definitivamente a mesma pessoa depois da Nina. É muita verdade quando dizem que a gente morre no parto para nascer uma nova você…demorei para digerir esse processo, mudei de corpo e de cabelo, meu semblante suavizou, meus valores se aperfeiçoaram, por isso hoje eu não me vejo mais comprando tanta roupa e sapato como antes.

Era algo tipo ir para uma cidade dar uma palestra a trabalho e gastar quase todo o cachê conhecendo as lojas de marcas locais. Tudo bem que tinha a ver com meu trabalho, mas não precisava gastar tanto. Numa das últimas vezes, em Curitiba, comprei a mais com medo de perder a oportunidade e já vendi três peças que foram caras, das seis que comprei. Eu me enganava sem sentir, não que eu fosse falsa no meu discurso, eu só não enxergava que estava me sabotando!

Eu acreditava no que se reverberava em consultoria de estilo “a mensagem que a gente quer passar”. Então eu ficava muito preocupada com isso, em me afirmar na imagem para compensar a insegurança da psique. Foram muitos baques emocionais que me fizeram me apaixonar pela possibilidade da moda transparecer o que eu não conseguia externar: uma mulher forte, corajosa, com ideais e sensível. Mas essa insegurança também fazia com que nenhum look estivesse bom o suficiente, me colocava em situações de comparação, sempre tinha alguém mais criativo, interessante, com uma roupa mais legal.

Era uma busca pela mensagem externa incessante, que aumentou quando pude gastar mais com roupas. Na verdade eu já fazia isso com bazares e lojas off, que me permitiam ter roupas que eu jamais teria condições de comprar se não fossem de segunda mão ou pontas de estoque. Mas eram roupas que nem sempre estavam em alta, eu comprava o que tinha e o que podia. Quando pude comprar as de preço cheio, que eram justamente as que estavam no topo das tendências, fui me sentindo mais estilosa. Mas ainda assim, as novidades surgiam e surgiam e não dava para acompanhar tudo.

Ficar em paz comigo, me afirmar como alguém com valor sem precisar de tanto esforço e gastos, foi essencial para fazer as pazes com meu estilo e limpá-lo do que era excedente. Isso trouxe uma clareza do que foi comprado apenas por impulso, do receio de estar perdendo algo incrível, do que tenho há anos e permanece soberano, da vontade de passar a tal mensagem pensando em eventos – eventos esses que eu nem fui, aliás.

Compreender que eu performava uma femilidade padronizada, que eu não precisava me comparar com roupa da ciclana ou beltrana, que estar na minha pele finalmente me traz um conforto na alma, é surreal de bom. Lamento pelo tempo e dinheiros gastos nessa empreitada? Hum…talvez, mas também não. Foi parte desse processo, a Ana do passado precisava disso.

Zero interesse em moda

Essa pegou vocês, né? Pois é, eu já não estava mais a par de tudo, agora então meu interesse é bem perto do zero, hahah, olha o drama! Mas é verdade: não acompanho instagrams de marcas (acho que já escrevi sobre isso), não passeio mais em shopping (oi, pandemia), mas a real é que mesmo quando passeava, ficava de bode das vitrines, não achava graça em mais nada. Ainda gosto de um garimpo de segunda mão porque é a oportunidade de ter peças-desejo do passado, mas aí que está, é diferente de comprar o que está em voga agora. Eu nem sei o que é tendência, aliás.

“Mas Ana, como você se atualiza?” Sabe, gente, não preciso estar a par de todas as novidades para indicar. Eu conheço as marcas que estão alinhadas com o que considero essencial, salvo as referências e é isso. Fico com vontade algumas vezes, mas aí vejo os valores e desanimo, rs.

Tenho me interessado mais em narrativas femininas, contar histórias, e daí veio a nova definição do meu trabalho: quem somos dentro das roupas. E é isso que importa e que liberta, que somos mais, muito mais. Encontrarmos o verdadeiro valor aqui dentro da gente. <3

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