Você tem que ser elegante?

Acredito que com a retomada das atividades pós-vacinas, as mensagens sobre estilo pessoal têm pipocado mais nas propagandas do instagram. Depois de tanto tempo em home office, além da necessidade de recomeçar muito o que ficou estagnado nesse período para tanta gente visando também recolocações profissionais, nunca vi tanta consultora de estilo oferecendo soluções para resolver os looks das mulheres. Mas o que me chama a atenção nem é a publicidade em si, mas os argumentos sempre pautados na necessidade de parecer elegante e esta mensagem estar sempre atrelada a um discurso hegemônico e com imagens eurocentradas.

Fique mais elegante, ganhe mais auto estima, consiga destaque sem precisar necessariamente ter conhecimento pra isso – atrelaram o vestir a um valor de capital (deram até nome de capital visual, sério) e, infelizmente, por mais que eu ache isso péssimo por jogar todo mundo em uma caixinha de referências padronizadas, eu concordo que é isso que chama a atenção, sim. Triste, mas é verdade, você será julgada pelo que você veste.

Lembro de um curso que fiz que tinha uma única participante negra. Moradora da Baixada Fluminense, ela me confidenciou que se vestia de acordo com o que a branquitude considerava elegante: cabelos alisados, maquiagem clareando a sua pele, roupas parecidas com as imagens mais pinadas do Pinterest e, o principal, ela só via a possibilidade de atuar profissionalmente na zona sul carioca.

E é um fato, em todos os posts publicitários que entrei sobre o assunto as imagens eram de mulheres brancas, magras, cabelos lisos, em seus terninhos ou camisas de seda, calças de alfaiataria e scarpin. Esse foi o referencial que eu mirei por muito tempo nos meus looks, porque eu também já quis trazer mais de elegância pro meu estilo e tem muito a ver com o papo do post anterior, sobre aceitação.

A Silvia Barros, que é doutora em literatura brasileira e sua pesquisa foi sobre beleza e os atravessamentos de gênero, raça, classe e sexualidade, escreveu no meu inbox um comentário importante sobre esse tema:

“Quando se é preta ou gorda não tem muito o que fazer além de alisar o cabelo e colocar umas roupinhas que “disfarçam” as imperfeições. Quando a pessoa é mais velha, precisa fazer plástica? Quer dizer que a gente, diante da violência, só tem como ferramenta a auto violência?

Mas o que é ser elegante? É se vestir de um determinado estilo? É ter roupas de muita qualidade? É saber se portar à mesa? É votar no Lula em 2022? (OPA SIM)

Quais grifes a mulher elegante usa? Em qual bairro ela reside? Quais causas ela apoia? Qual é a sua aparência, afinal: magra, alta, loira, branca? Se você responder que não, porque a maioria das imagens de referências e das profissionais que vendem esse serviço seguem esse padrão?

Aprenda a ser elegante

Essas mulheres então ensinam outras mulheres que o conceito de elegância não só está relacionado a looks mais sofisticados, como também fazem menção uma aparência mais suave, a maquiagem em tons neutros, uma fala mansa, passos mais suaves. A etiqueta das boas maneiras que é o que se espera de nós desde a infância, na nossa socialização enquanto mulheres: fale baixo, sente-se direito, seja visualmente agradável e assim será merecedora de atenção, amor e louros.

“Ah, mas Ana, não vai me dizer que não é verdade, que esperam uma imagem da gente?” Claro, não sou uma iludida nessa sociedade que exige mundos e fundos de mulheres, mas em troca oferece misoginia. Empresas que exigem um código de vestimentas e de maquiagem mas oferecem um total de zero reais no salário para ajudar as funcionárias a custearem os padrões exigidos. Que cobra infinitamente mais da aparência feminina (sobrancelhas, unhas, pêlos, pele, pés, beleza, cabelos, corpo, tipo físico, dentes, TU-DO) do que da aparência dos homens para sermos ainda os menores salários comparativamente aos cargos ocupados por ambos os gêneros.

Para além de todo uma preocupação com os estudos, trabalho, casa, filhos, a aparência ainda é exigência máxima, introjetada como “escolhas”. Nos toma tempo, dinheiro e disposição e que visa apenas a manutenção de uma lógica patriarcal em que a carga mental feminina é infinita.

Aqui no Rio de Janeiro a Socila, escola de formação de misses, cuja fundadora, Maria Augusta Nielsen, ficou famosa por treinar jovens de classe média e alta, além de misses e faz parte até hoje do bordão dos cariocas como referência a boas maneiras (“Fulana parece até que fez Socila”). Foi objeto de estudo da pesquisadora e doutoranda Maria Carolina Medeiros, que conversou comigo no inbox do instagram (obrigada Maria, querida!) sobre o conceito de elegância atrelado a imagem pessoal e etiqueta social:

O que é elegância, afinal? Que conceito é esse aplicado às mulheres?

“É um conjunto de coisas. É exatamente o que a Socila ensinava. Elegância passa não só pela vestimenta mas pela contenção dos gestos, pela postura ereta, pela contenção no modo de falar. São muitas regras, e algumas se aplicam tb aos homens. A diferença gritante que vejo é que tá tudo bem se o homem não for elegante. Não existem escolas e manuais para que ele aprenda a ser, porque não é uma demanda. Ele é quem ele é – o Sujeito.

A mulher só é alguém se preencher os requisitos da feminilidade. Isso foi construído atrelado à ideia de que a mulher precisava se casar pra existir no mundo, e quanto mais bem sucedida a mulher fosse em desempenhar esse papel social da feminilidade, mais facilmente ela alcançaria o objetivo do casamento. E tb pelo fato delas antes ficarem restrita ao lar (claro, mulheres brancas, afinal era pra elas que essas regras eram escritas), e quando passam a circular no espaço público são entupidas de regras sobre como se portar em tudo.”

Maria Carolina Medeiros, pesquisadora

Para quem serve a elegância, seria melhor então perguntarmos. E em um mundo que está literalmente derretendo, a pessoa vai ficar sentadinha com seu terninho chanel aguardando o tsunami chegar, afinal o importante é estar no seu look monocromático, como pontuou perfeitamente uma outra leitora minha.

Por mais que estejamos inseridas nesse modelo de sociedade, não reproduzir padrões de opressão carregados de discursos gordofóbicos, racistas e misóginos, deveria ser um dever de quem trabalha com imagem de outras mulheres. Eu sei que existem demandas, mas não trabalho assim porque não quero continuar compactuando com a auto violência de mais mulheres para se encaixarem. Busquemos outras referências que contribuam efetivamente para um novo olhar para o vestir, mesmo quando não tem muito pra onde correr, pelo menos observarmos com cuidado esse tipo de discurso e no que ele contribui para a subserviência feminina, até onde acataremos algumas situações.

Para mulheres negras, por exemplo, é difícil se distanciar da atenção à imagem, por conta das cobranças maiores advindas do racismo estrutural. Mas é possível construir um trabalho de resistência, de incorporar elementos importantes, ser luta.

Moda vai muito além de deixar todo mundo vestida igual a branca magra. É ancestralidade, política, afeto, empatia, pertencimento, mensagem, conforto, diversão, funcionalidade. A dica para se vestir melhor é aquela que cabe na sua vida, na sua rotina, nos seus desejos, no seu tesão, na sua luta e no que te toca para seguir adiante.

Acho necessária uma revisão dos programas dos cursos de consultoria de imagem: precisamos ter mais discussões históricas, sociológicas, antropológicas, filosóficas, para que as pessoas entendam que moda é questão também de contexto e de estrutura.

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