Ontem saí pra almoçar com a minha amiga e fomos no nosso refeitório preferido, um lugar extremamente simples, mas de comida excepcional. Ela é designer, mas segue exclusivamente a profissão há 20 anos. Já eu comecei sendo designer, ainda o sou, mas me enveredei para o lado da consultoria de estilo há 4 anos.
Eu me sinto bem cansada, mas muito grata pelas últimas experiências. Enquanto todo mundo recomendou que eu aproveitasse as festas para descansar, eu abri minha agenda e continuei. Não queria parar natal, não queria parar ano novo. Durante a caminhada eu não olhei pro lado certo, distraída, e quase fui atropelada. “Cuidado, Ana!” e eu vi a cara assustada da minha amiga. “É o cansaço….”, justifiquei.
Estava me questionando sobre como descrever esses meses, de um ano inteiro de ralação. O primeiro semestre foi de ideias, de começar a executá-las, de bater nas portas dos lugares, mas quase nenhum retorno. Foram meses difíceis, até desacreditei do meu caminho no dia em que olhei minha conta bancária zerada. Mas foi só esse dia: eu não tinha tempo para me lamentar. A certeza da direção era maior, aquilo era apenas uma pedrinha na estrada, era preciso levantá-la e continuar.
Enquanto eu relembrava desses momentos na ida ao refeitório, ela falava do documentário Jiro Dreams of Sushi, que tinha assistido no Netflix. É a história de Jiro Ono, um senhorzinho japonês de 85 anos que trabalhava incansavelmente todos os dias, no seu restaurante minúsculo, que serve um sushi simples mas de sabor altamente complexo, com uma fila de espera de meses e refeições que custam mais de 1.500 reais. Jiro é considerado o melhor sushiman do mundo e repete para si mesmo que ainda não atingiu a perfeição, mesmo ganhando três estrelas Michelin.
Hoje acordei mais cedo para trabalhar, mas a curiosidade foi maior e resolvi assistir ao documentário. O filme não fala sobre moda, como já diz o título, e é uma visão simplista achar que é sobre sushis. Vai além da arte do preparo e sobre trabalhar duro com o que se ama, desarmando a historinha de ser bem sucedido.
É sobre perseverança e obstinação. Quando se escolhe seu trabalho, é preciso mergulhar no seu universo, apaixonar-se pelo ofício e nunca reclamar dele. Repetir todos os dias a mesma coisa para aprimorar-se, desenvolver a técnica e sabendo que, para deixar sua marca no mundo, é preciso ter talento.
Nesse momento em que ele fala de reclamar, levei um tapa. Falei de cansaço no início desse post, justifiquei minha fadiga várias vezes. Trabalhei sem parar, sem descanso, sem um final de semana livre desde julho. Sim, o corpo sentiu. Não, não é legal também trabalhar à exaustão e comprometer a saúde. Mas num ano em que todos reclamaram de falta de trabalho, era uma ofensa reclamar de cansaço pelo excesso dele.
Despausei na parte em que os aprendizes do restaurante ficam um ano enrolando toalhas quentes (oshibori), queimando as mãos para, a partir daí, levar no mínimo mais 10 anos executando tarefas braçais e fazendo sushi de ovo. Só então eles podem vislumbrar sair de lá um chefe aprendiz. Jiro fala que sempre aprimora suas técnicas, mesmo quando acha que já está bom; se um polvo normalmente precisa ser massageado por 30 minutos para não ficar borrachudo, ele o deixa mais leve ainda massageando por 45, 50 minutos.
Esse ano recebi vários emails sobre o mercado, como estava trabalhar com moda, como seguir a carreira, como conseguir ganhar dinheiro…e em nenhum eu soube dar a resposta. Não sei ainda. Eu não espero cliente, eu crio demanda. Eu não sou a expert, nem me sinto a consultora mais sabida ou alguém que seja a referência nesse assunto.
Eu me sinto o aprendiz que enrola toalhas quentes, o aspirante que massageia sem parar e mecanicamente o polvo por quase 1h para que fique macio enquanto sonha com uma década de mais trabalho duro, para começar a só então trilhar seu caminho.
2015 trouxe um bom retorno, mas ainda estou massageando o polvo. Aprimorando para ser cada vez melhor no que me motiva todos os dias a levantar: o poder transformador do meu trabalho.
Em nenhuma hipótese me senti o próprio Jiro (hahaha, ousadia!), mas me reconheci na sua fala. E tirei o peso que carregava por abrir mão de tanta coisa para viver do que eu acredito. O que é bem diferente de ganhar dinheiro, a recompensa é uma moeda muito mais valiosa: o reconhecimento.
O peito transborda a vontade de colocar pra fora o conhecimento, para então aprender mais e sempre. E o trabalho é duro porque é a partir dele que eu sobrevivo. De continuar o que comecei com o blog, compartilhando muito além de conceitos de looks incríveis. Era necessário passar mais do que frases feitas e repetir o mais do mesmo; eu quero transmitir paixão com meu trabalho. Esse desejo de se observar diariamente com a vontade de crescer e se aperfeiçoar.
Finalizo a pensata com a fala do mestre sobre essa ânsia atual da busca da felicidade: “Hoje em dia os jovens querem ter um trabalho fácil, ter muito tempo livre e ganhar muito dinheiro. Mas eles não se preocupam com o conhecimento.”
Não sei definir se trabalhar com o que se ama é ser exatamente feliz. Sei apenas que é uma inquietude constante, uma incerteza que angustia. É se dar o prazer de arriscar e perder muitas vezes, a oportunidade de aprender a lidar com a frustração. Não se contentar quando não se consegue ter tudo do jeito que planejou.
Acabei de ter essa epifania sobre o meu ano. Não sobrou tempo de pensar a respeito para escrever sobre. Não dá pra afirmar que perseverei e venci, que tudo saiu como planejado, que alcancei minhas metas. Mas sou feliz dentro e fora do meu trabalho.
Foi tudo rápido, num fôlego só, um nado direto em apneia. Agora volto à superfície para pegar mais um pouquinho de oxigênio e mergulhar de novo. Mais uma oportunidade de me aprimorar deixando meus polvos macios, é o que eu espero de 2016.
Ps: eu não como sushi, rs.


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