Volte a falar de moda, Ana.

Recebi uma mensagem que dizia que seria ótimo se eu voltasse a falar de moda, como sempre fiz aqui no blog. Nessa mensagem, a pessoa colocava que seguidoras antigas sentiam falta do conteúdo que fazia exclusivamente sobre o assunto, as referindo como órfãs.

Orfão é quem perde seu tutor. Eu não tutelo mulheres, eu estendo a mão para que elas continuem sujeitos ativos. Mas talvez eu tenha morrido, sim.

Por aqui eu continuei falando mais sobre moda, assuntos de coleções especiais, mas no instagram o papo durante 2020, – esse ano bestial que nos isolou em casa por tempo indeterminado, trouxe medo, levou embora meus cursos presenciais, meus projetos e me trouxe a minha filha, a qual dediquei e dedico boa parte das horas dos meus dias cuidando e sendo nutriz, sem poder receber ajuda de rede de apoio –, foi sobre todos esses acontecimentos, sendo o maior de todos ter me tornado mãe da Nina e tirado meses de licença. Foi um ano em que deprimi.

Órfãs de uma mulher que morreu e conseguiu renascer.

A maternidade fez nascer uma nova Ana. Não tenho como desassociar mais desse papel, que me ajudou a descortinar tantas coisas que passavam batido. A Ana de antes vivia exaltando a correria, marcando viagens a trabalho, tentando crescer nas redes sociais, obter reconhecimento como profissional de moda e tendo finalmente o retorno financeiro nos projetos e cursos. Dormia tarde porque tinha ideias mirabolantes, mas vivia nervosa e passando raiva das pessoas que contratava para executá-las. Ora atrasavam entrega, ora não faziam à altura do que eu esperava. A Ana de antes estava sempre atropelando cuidados com ela, com o que ela sentia e intuía – inclusive na gravidez –, e sentiu a consequência de achar que a vida é uma grande lista de tarefas, onde a satisfação morava apenas em riscar os itens que precisavam ser feitos. A Ana de antes abriu mão do prazer e do descanso; não gozava em um casamento infeliz, não planejava viagem de férias, não conseguia dizer as três coisas que mais gostava de fazer na vida. O trabalho era a sua salvação, onde ela poderia ter uma vida plena e feliz, acreditava. Mas era também a sua maldição, porque faltava enxergar prazer nele.

A Ana de antes não via valor em ficar à toa em casa, e estava sempre inventando uma saída com os amigos, ou resolvendo as coisas do jeito mais prático possível, porque o que importava era resolver. Tinha crises de ansiedade constantes, paralisantes, se sentia cobrada na mesma proporção que se sentia uma farsa, uma impostora, afinal, tinha gente melhor que ela, que tinha lido mais livros, que conseguia lançar projetos melhores, por isso pedia sempre opinião dos outros e dependia disso para se sentir segura. Cobrava estar maquiada, de salto, arrumada, mesmo que isso tudo fosse um disfarce, uma mentira.

Essa era a Ana que nem a própria Ana tinha ideia de ser assim. A Ana de hoje ainda está caminhando, mas consegue perceber uma diferença enorme da anterior de bem pouco tempo atrás. A Ana que nasceu com sua filha entendeu o valor inestimável do tempo, um tempo que se difere do ditado pelo restante do mundo, dos algoritmos, dos likes. A Ana de hoje dorme cedo dando mamá, acorda de madrugada e consegue contemplar o nascer do sol. A Ana de hoje está cansada, mas descobriu que não pelo maternar (sem romantismos, ok), mas pela falta que a rede de apoio faz. A Ana de hoje descobriu que seu cabelo mais comprido e grisalho, é maravilhoso. A Ana de hoje acha seu corpo lindo, mesmo com barriga pós-parto. A Ana de hoje vê valor em ficar em casa, em acompanhar os marcos de desenvolvimento da filha, sente paz nessa entrega. A Ana de hoje voltou a ler, mas está travada para a escrita – pensa em participar de rodas de conversa, coletivos e oficinas para ajudar a não se cobrar tanto nesse momento. A Ana de hoje pariu em casa, gente! Pariu sozinha, sem ajuda, sem medo e sem dor. A Ana de hoje aprendeu muito sobre o sistema que nos aprisiona no consumismo desde novos, que oprime mulheres que escolhem cuidar dos seus filhos e têm essa função essencial na Economia do Cuidado, desvalorizada; A Ana de hoje sentiu na pele o capitalismo pesando sobre mulheres com a cultura do desmame. A Ana de hoje quando escreve, escreve para mulheres e se sente conectada a elas. Pertencente, contribuindo, construindo, fortalecendo.

A Ana de hoje está feliz. Tentou voltar a trabalhar, precisou, né, mas logo viu que alguma coisa precisaria mudar. Que aquilo que ela sempre julgou gostar, na verdade era a sua cortina fechando para a beleza de quem ela é. fechou publicidades importantes que a ajudaram nesse período, mas não se vê mais fazendo o que fazia. Ela na verdade nem gostava real de um monte de coisa, mas fazia porque estava seguindo o fluxo, sem questionar, sem se perceber.

A Ana de hoje está feliz, e mesmo sem saber ainda seus rumos pessoais e profissionais, não sente medo. Não está insegura. Não teme, porque ela costruiu quem ela é, sendo. E, na bravura de compartilhar suas decisões e imperfeições, ajuda tantas outras, inspirando.

Respondendo à seguidora, que se for mesmo das antigas, vai vir aqui no blog comentar: não, não vou voltar a falar SÓ de moda. Eu existo. Mas minha filha também existe. Não é uma coisa ou outra. É uma pessoa, completa, inteira. É parte de mim, da minha vida, e sigo não fomentando a maternidade compulsória. Mas, perceba, a vida é se vestir, mas também mais um monte de coisas. É um todo, mesmo que desmembrado em temas, nenhum deles está completamente deslocado do outro. E moda NUNCA foi o tema central aqui, preciso te informar, porque acho que você nunca notou a mensagem por trás dos posts.

Eu sempre falei para mulheres. E é sobre isso.

Sou mãe, sou mulher, sou profissional, sou inteireza. Não silenciem uma mulher que está imersa em seus processos pessoais. Não silenciem mulheres. Não canibalizem. Como disse Mana Bernardes, não se cobrem, nem me cobrem, pois biologicamente já é uma cobrança muito forte, não me cobrem nem respostas, nem desafios, estou cansada, aprendendo também a nascer.

Não me cobrem a voltar a falar de moda. Eu vou voltar. Eu vou voltar a falar. Eu vou falar. Mas também quero me recolher, emudecer, ter o tempo de sentir, de ser.

Toda mulher cresce e se fortalece quando outras mulheres renascem. Que seja mais sobre isso.

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