A C&A vai criar coleções em até 24h – o que isso significa?

Em matéria da InfoMoney, o CEO da rede de fast fashion, Paulo Correia, anunciou o investimento como estratégia para turbinar vendas pelo e-commerce, já que as vendas online cresceram em 180% mas tiveram queda nas lojas físicas de mais de 20%, por conta da pandemia. Em menos de 24 horas, mini coleções serão desenvolvidas e aquecidas pelas redes sociais, onde, segundo a matéria, rola o calor do consumo.

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Alerta Tendências é o nome da estratégia, que quer superar o modelo de velocidade da alcunha fast fashion, e capitaneada por influenciadores digitais estimulando as vendas. “120 profissionais das áreas de estilo, logística e também os chamados “buscadores de tendência”. Com as informações da internet em mãos, os estilistas precisam criar uma peça que deverá estar disponível para pré-venda em 24 horas no site da companhia – contando fotos com modelos e todas as especificações. As entregas são realizadas em até 15 dias. A princípio, essas coleções terão 100 unidades fabricadas por peça.”

Segundo o CEO, isso reduzirá o desperdício – lembremos das iniciativas de sustentabilidade do Instituto C&A, de logística reversa, coleções com algodão orgânico, etc – porque provocará compras mais assertivas do consumidor, evitando desperdício.

Vamos para a minha análise desse projeto uó?

Vocês lembram quando eu fazia resenha de coleções especiais da C&A e, numa determinada época, era uma atrás da outra, com até menos de duas semanas de intervalo? A quantidade de roupa ruim, de peças encalhadas nas araras e provadores, de despejo de tendências que ninguém queria…até perceberem a mudança dos consumidores e investirem em coleções cápsulas, focadas na diversidade de corpos

Alguém consegue conceber a sobrecarga da criação em um modelo de negócios como esse? Na contramão da C&A, a Renner tem faturado alto com suas coleções com marcas atreladas a sustentabilidade, como a mais recente, com a Insecta Shoes, e artistas conhecidas das redes sociais, que desenvolvem projetos sociais inclusive. Mas pegar uma equipe de criação e desenvolvimento de coleção para criar mini coleções de CEM peças de um dia para o outro, como isso é sustentável e, principalmente, viável em termos de valores humanos? Como atender tantos anseios de tendências, e ainda dizer que isso reduzirá desperdício? Imagina a pressão e correria que essa equipe vai passar, nossa. O desgaste emocional que sofrerá, principalmente as costureiras, que são o elo mais fraco aí.

Isso expoe a fragilidade do setor, que emprega muita gente e não pode não vender. Que vai contra o que a empresa prega de avanços para iniciativas sustentáveis para pdoer reverter uma queda de lucros e começar uma competição de vendas para o digital, que está defasada para eles.

Em que essa estratégia estará alinhada aos valores dos programas sociais da empresa? Isso se chama greenwashing, quando a sustentabilidade é apenas fachada das ações socioambientais. Buscar por soluções duráveis, com criações elaboradas com cuidado, apoiando iniciativas, não parece ser mesmo interessante para a varejista, que deixa claro em ações como essas o que realmente importa. Lucro.

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