A armadilha do desapegar para comprar

Estava conversando com uma leitora do blog e ela comentou que ela é uma pessoa desapegada. Não tem pena de doar e vender roupas que ela não quer mais, não se arrepende depois, não titubeia nem na hora de tirar dos cabides. Mas, apesar de se considerar desapegada por conta disso, ela observou que o vazio do armário a convida para comprar mais e preenchê-lo. Então ela desapega, mas compra em seguida para repor o que se foi.

Acho que uma das “regras” da nova forma de trabalhar com consultoria de estilo que eu não considero mais é a do “entrou um? saiu outro”. A conta não fecha se a grande questão da pessoa é ter demais, peças repetidas, além de perceber que isso não deveria ser a única opção para justificar a saída de uma peça que não acrescenta em mais nada no estilo dela. E o armário continuará abarrotado se for assim – e tudo bem, se você quiser assim, de verdade! Se isso não te incomodar nem atrapalhar, mas estejamos atentas ao que estamos conformadas, usando como bengala, ou atendendo aos ensejos de um sistema que nos leva a consumir e acumular.

Minha mãe é assim, sempre foi extremamente prática com seus desapegos, armário enxuto. Peças incríveis, ela dava tchau sem dó. Mas logo em seguida ela dizia que precisava de uma calça preta nova porque não tinha sobrado nenhuma para ela vestir. Ora, se ela deu as calças pretas, que estavam sem uso, sem significado, pra que ela precisaria repor?

Às vezes são peças que nem gostamos tanto assim, mas compramos porque disseram que precisamos ter, só que não é simples encontrar uma que esteja alinhada com estilo, corpo, modelagem e qualidades boas. Muitas vezes compramos o que ficou mais ou menos para preencher essa “falta” que foi colocada pra gente, quando na verdade ela nem existe!

Ser desapegada é ótimo, o apego é a raiz do sofrimento, já profetizou Buda. Mas o apego está presente também em enxergar o suficiente como pouco. Não é sobre número de peças que temos, quantidade ideal de roupas, peças-chave, itens incríveis, nada disso: o que é suficiente pra você? O que te atende, facilita seu vestir, te deixa bem? Se for mais vestidos que calças, ótimo. Se em algum momento você perceber o contrário disso, ajustes podem ser feitos. Mas a partir da percepção do que seria legal acrescentar para atender uma demanda, e não somente guiada pela falsa necessidade que criaram para nós.

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