Terceira peça e sua função excludente


Eu nunca gostei de verão, mas o motivo ia além do calor extremo – eu me sentia desarrumada nessa época, impossibilitada de me maquiar também, olha o desaforo. Tinha raiva da limitação forçada nos meus looks, que tinham uma vibe mais pra paulista que pra uma carioca: muitos blazers, cores escuras, blusas armadas de tecido grosso e fibra de poliéster, calças de alfaiataria, sapatilhas e oxfords que esquentavam os pés (mas também escondiam…).

Não sentia vontade de coleções de verão, com flores, coqueiros, tecidos molengas demais e cores quentes. Vivia frustrada nessa época, esbravejava muito aqui no blog (quem lembra? Hahah) e suando excessivamente sem entender o por quê (alô poliéster!).

A polêmica das terceiras peças

A maioria das dicas de estilo – que eu reproduzia também, totalmente convencida delas –, sugeriam o uso das difamadas terceiras peças, que são uma camada extra nos looks, por cima das outras, podendo ser kimonos, casaquinhos, blazers, camisas abertas, jaquetas, etc.

Mas na prática era muito dificil conciliar o uso, ainda mais se considerarmos que somos um país majoritariamente quente. Eu suava muito porque várias tinham sintéticos no forro ou na composição. A solução que encontrei na época? Levá-los numa bolsa até o trabalho, onde eu tinha ar condicionado e comprar uma caixa de absorventes de suvaco. hahahaha! Eu rio pra não chorar hoje, rs, porque não faz sentido levar roupa pra passear e muito menos gastar com apetrechos para camuflar o real problema disso tudo.

Só depois de muito tempo percebi que era um desgaste desnecessário passar os dias lamentando tanta roupa parada no armário, gastando mais dinheiro com isso e me vestindo na base do ódio na época de calor (ou seja, mais da metade do ano no Rio de Janeiro, rs). Eu não precisava de tantas camadas para ter o estilo que desejava, nem esperar uma estação para poder me vestir como queria. Assim, fui desapegando da imagem que nunca foi minha, e abraçando minha carioquice, sendo feliz com cores, estampas, tecidos leves e sandálias.

Nesse pensamento completamente sulista e de reprodução de um padrão estético eurocêntrico, eu percebi que excluia de alguma maneira da conversa tantas mulheres nordestinas e nortistas, lugares onde é calor o ano todo. É besta demais ditar uma terceira peça onde não faz sentido, segrega e leva a moda a patamares irreais, por mais que se esteja defendendo o oposto disso.

Sim, existe elegância sem estar de blazer e jaqueta, com os pés fresquinhos, o suvaco “respirando”, os braços e pernas livres em fendas, tecidos levinhos e cores animadas. Elegância é estar confortável na sua própria pele, sem sofrer.

O maternar me levou a uma simplificação e leveza ainda maiores – ao invés de me sentir limitada por conta da amamentação, de não poder usar acessórios, da falta de tempo pra me vestir -, na verdade peneirei para chegar no meu essencial e gostar demais do que vejo.

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